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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

De passagem

Estava eu dormindo no meu sofá quando ouvi
Que tinha um moço na minha rua procurando Gabi
Me desesperei, dei um pinote e fugi
Até descobrir quem era o tal do guri
Um ex-namorado inconformado com o fim?
Sei lá, pulei a cerca e apareci no jardim:
- O que você veio procurar por aqui?
- Eu to de passagem, voltando de viagem, me perdi
E se  eu te disser que te sinto saudade, eu menti
- Francamente, meu caro, não adianta fingir
Eu moro em Jaçanã e você no Pari
O que é que cê veio procurar por aqui?
- Pretensiosa, hoje eu não to pra prosa, ô Gabi
Eu só me lembrei do boné que eu esqueci
Entrega a bagaça e chega de graça, tenho que ir
E pra te avisar, mané, eu me mudei pra Mogi

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Amarelo

Vou sair de casa
Me visto vestido
No passo, na pressa
Desisto, me dispo
Me visto e revisto
Carteira, cartão

Te levo pra casa
A saia na sala
No passo, na pressa
Carteira na escada
Sapato no quarto
Blusinha no chão

Te deito, me deito
Te dispo, me dispo
No passo, na pressa
Que dor de cabeça
Me deixo na cama
Te deixo na mão.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Ousar ounão

Ousados têm a memória seletiva. Quem ousa não se supera porque a superação é fruto de falhas. E o ousado já se esqueceu de que fracassou um dia, porque se se lembrasse não ousaria mais. Então ele seria um arriscador.

O arriscador joga cara ou coroa. O ousado joga cara a tapa. O arriscador oferece tudo, vende a mãe. O ousado vende a mãe também, só em último caso. Mas ele entrega. O que arrisca não sabe o que fazer com seus planos depois do sucesso ou fracasso. O ousado já tem planos de B a Z caso o A não funcione. 

O ousado viaja pra um camping sem barraca. O arriscador também. O ousado arruma uma barraca com colchão e cia. O arriscador arruma um saco de dormir e dorme sozinho no chão e sereno. Depois reclama. O arriscador trai. O ousado termina e some.

O arriscador pensa em alternativas. O ousado pensa em dissertativas, sai de situações constrangedoras como um stripper sai do bolo numa despedida de solteira. O arriscador se mete em maus lençóis depois se arrepende. O ousado se mete em lençóis de seda depois veste roupão e chinelinho.

O arriscador semicerra os olhos na hora decisiva. O ousado mantém os olhos abertos como se já soubesse – e sabe – o que fazer mas finge que não porque gosta de blefar e só ele sabe que blefa. Ele blefa pra si mesmo. O arriscador é conduzido pelas circunstâncias. O ousado conduz a todas elas e se diverte com a previsibilidade.

Para o arriscador, quando algo dá errado, dá merda mesmo e não tem o que fazer senão lamentar e jamais repetir o (mal)feito. Para o ousado, a surpresa é a oportunidade de fazer algo novo e ele repete o feito porque o desfecho pode ser outro. Ele gosta de se meter em roubadas, mas já pensou na solução. Quem ousa tem casos mal resolvidos de propósito, só pra ter algo pra chamar de eterno. 

O arriscador pensa nas perguntas que fará, o ousado pensa nas respostas que virão das perguntas, caso as faça. O que arrisca é inseguro - por isso "arriscador" não existe. Quem ousa é ousado. Engana-se quem pensa que o ousado não pensou. Se quem não arrisca não petisca, quem não ousa não sabe o que perdeu. 

domingo, 23 de novembro de 2014

Ela chegou!

Sei quando ela chega de mansinho em casa, durante a madrugada. Sei que ela não desliga a música do carro porque ela quer cantar até o final. Desliga o carro, o som, gira devagarzinho a maçaneta e entra. Não tranca o carro porque não ouço o alarme. Fecha a porta e quando gira a maçaneta pelo lado de dentro, ela range. Sobe o primeiro e segundo degraus numa boa. Mas o terceiro estala um pouco, o quarto degrau estala bem alto. Nos degraus seguintes, a solas do chinelo cheias de cerveja pisada colam no verniz e fazem barulho. Ela fica num dilema entre subir a escada rápido, fazendo barulho; ou devagar, colando e descolando as solas no verniz. Se tirasse os tênis era só subir devagar, de meia. Pena que eu não consigo avisar. Ela chega à porta do quarto e abre a porta, que range muito.

Quando ela, finalmente, senta na cadeira e liga esse computador eu começo a latir e acordo geral pra avisar que ela chegou.

Atenciosamente,

Mutley

sábado, 22 de novembro de 2014

Varandeando

Procurei um jeito de expressar a minha sinceridade e, às vezes, a sua falta.

A varanda de casa, o lugar de onde eu pulava na madrugada pra ver meu portuga na casa ao lado. Foi ali onde, dois anos depois, o gaúcho se balançou na minha rede enquanto fumávamos, um mês depois de termos nos visto uma vez na vida... e ele balançava com tanta calma que até me contive pra não avisar que os parafusos mal colocados no teto provavelmente sustentariam 50 quilos . Eu fiquei ali quieta entre um monossílabo e outro. Deu tudo certo, ele não caiu da rede, mas eu caí na rede dele. Eu gosto dele, mas pra vê-lo não é só pular uma varanda.

Nos conhecemos e ficamos por meia hora. Três semanas depois, no meu aniversário, ele comprou uma passagem pra vir me ver no fim do mês. Conversei mais com ele e antes de ele vir comprei uma passagem pra vê-lo um mês depois que ele viesse. Saí de casa quando o avião passava por Curitiba e cheguei em Congonhas quando ele aterrissou em São Paulo. Levei-o em Guarulhos de pijama na segunda de manhã e conversamos por mais 4 semanas, diariamente, via whatsapp, até que ele me buscasse e levasse ao Salgado Filho.

Não tínhamos nada sério, era só uma troca de experiências e favores muito interessante. Tive a chance de, por dois finais de semana, conhecer alguém o mais a fundo que pudesse. Dividimos a mesma cama e os mesmos dias por 6 dias e manias um do outro: roer unhas, acordar no susto, pesadelo, sotaques diferentes, silêncios gigantes e agradáveis. Na primeira noite dormimos empilhados e acordamos na diagonal. Até viajamos. Não juntos, mas viajamos. E além de tudo conheci uma cidade nova.

Algumas vezes não concordamos e discutimos. Mas era expressamente sabido: não tínhamos (nem teríamos condições de ter) nada sério. Claro que eu não levei a sério o fato de não termos nada sério porque eu levo as coisas a sério quando convém. Convinha. Eu o levei a sério, e pior, disse isso a ele.

A proposta havia mudado, a empolgação acabou, fim da história.

Vamos à parte em que faço um intensivão de 2 meses sobre amor na varanda pra tentar entender o que deu errado, enquanto observo o passarinho que come o alpiste que deixo ali todo dia: temos o suficiente um do outro, ele voa às vezes pra me ver e somos felizes. Pra que aprisioná-lo?

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ofertas

- Boa tarde, por favor a senhora Mariana?
- Sou eu, pode falar.
- Estou te ligando sobre duas oportunidades. Você está disponível no momento para que eu possa te dar mais informações?
- Sim. 
- Bom, Mariana, a empresa é mundialmente conhecida, apesar de ser familiar. As suas atividades serão, basicamente: tomar sol, visitar avós, passear com cachorros, fazer trabalhos da faculdade quando precisar, ler livros - do tema que você quiser -, entrar no Facebook, ligar pra sua mãe mais vezes do que o usual, lavar seu carro na garagem, visitar amigas, viajar com a companhia sem data de volta, fazer corrida e caminhada, andar de bicicleta, dar banho em cachorros, fumar na rede e ir ao clube. Requer não gostar de pressão e independência. O traje é à vontade, pode ir de pijama se quiser. Você tem experiência com isso?
- Claro. E qual é o horário?
- Você pode começar suas tarefas a hora que quiser e fazê-las por quanto tempo julgar necessário. O horário de almoço você pode fazer ou não no local e por quanto tempo quiser.
- Interessante. Em que região?
- Temos para todas as regiões, bairros e vilas do Brasil e do mundo. 
- Tem na zona norte?
- Sim. Mas você tem possibilidade de viajar ou residir em outros locais?
- Sim... Me interessa muito. 
- Quer saber sobre a segunda oportunidade?
- Ah, pode ser.
- É uma oportunidade de carreira em uma multinacional. Suas atividades serão...: fazer follow-up de pedidos junto ao gestor, atuar no segmento B2B, cuidar do supply chain e logística, branding, 4 pês, sistema SAP, fazer levantamento de dados junto ao fornecedor, entre outras siglas. É imprescindível ter inglês fluente com certificados TOEFL e/ou TOEIC e espanhol com certificados DELE e/ou CELU feitos há menos de dois anos. Conhecimentos em outro idioma são um diferencial. Deve residir próximo à região sul, ser pró-ativo, resiliente, comunicativo, introspectivo, saber trabalhar em equipe, ter capacidade de concentração, ser multi-tarefas, flexível e ter espírito de liderança, criatividade e perfil analítico. Deve ser comprometido com o trabalho e ter excelente desempenho acadêmico. A possibilidade de efetivação está condicionada às notas da faculdade. Deve ter conhecimentos avançados em Excel, Power Point, Photoshop, Illustrator e sistemas operacionais Windows, Linux e Mac, além conhecimentos intermediários em Google AdWords e subir arquivos em FTP. O horário é das 9h às 15h, com quinze minutos de almoço e restaurante no local. 
- Não tem VR?
- Não, mas o restaurante tem muitas variedades, Mariana. 
- E quais são os benefícios das oportunidades?
- Tempo e dinheiro, respectivamente.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Soía

Soer já foi um verbo muito frequente no Português do séc. XVI (Camões usava muito), com o sentido de nosso costumar: "No tempo em que os homens soíam respeitar sua palavra". No entanto, hoje seu emprego ficou praticamente restrito aos textos e discursos eruditos, em expressões mais ou menos pré-fabricadas do tipo "como sói acontecer", "como soía ocorrer".

Soía ser eu e você
Só ia ser eu e você
E fui só eu
Foi sendo,
Ficou sendo e soendo assim ser
Doía e soía doer
Sabia que só ia assim ser
E quem soeu foi você
Quem viu quem sou eu
Fui eu
Quando você soer saber
Já não vai mais ser