Pages

domingo, 23 de novembro de 2014

Ela chegou!

Sei quando ela chega de mansinho em casa, durante a madrugada. Sei que ela não desliga a música do carro porque ela quer cantar até o final. Desliga o carro, o som, gira devagarzinho a maçaneta e entra. Não tranca o carro porque não ouço o alarme. Fecha a porta e quando gira a maçaneta pelo lado de dentro, ela range. Sobe o primeiro e segundo degraus numa boa. Mas o terceiro estala um pouco, o quarto degrau estala bem alto. Nos degraus seguintes, a solas do chinelo cheias de cerveja pisada colam no verniz e fazem barulho. Ela fica num dilema entre subir a escada rápido, fazendo barulho; ou devagar, colando e descolando as solas no verniz. Se tirasse os tênis era só subir devagar, de meia. Pena que eu não consigo avisar. Ela chega à porta do quarto e abre a porta, que range muito.

Quando ela, finalmente, senta na cadeira e liga esse computador eu começo a latir e acordo geral pra avisar que ela chegou.

Atenciosamente,

Mutley

sábado, 22 de novembro de 2014

Varandeando

Procurei um jeito de expressar a minha sinceridade e, às vezes, a sua falta.

A varanda de casa, o lugar de onde eu pulava na madrugada pra ver meu portuga na casa ao lado. Foi ali onde, dois anos depois, o gaúcho se balançou na minha rede enquanto fumávamos, um mês depois de termos nos visto uma vez na vida... e ele balançava com tanta calma que até me contive pra não avisar que os parafusos mal colocados no teto provavelmente sustentariam 50 quilos . Eu fiquei ali quieta entre um monossílabo e outro. Deu tudo certo, ele não caiu da rede, mas eu caí na rede dele. Eu gosto dele, mas pra vê-lo não é só pular uma varanda.

Nos conhecemos e ficamos por meia hora. Três semanas depois, no meu aniversário, ele comprou uma passagem pra vir me ver no fim do mês. Conversei mais com ele e antes de ele vir comprei uma passagem pra vê-lo um mês depois que ele viesse. Saí de casa quando o avião passava por Curitiba e cheguei em Congonhas quando ele aterrissou em São Paulo. Levei-o em Guarulhos de pijama na segunda de manhã e conversamos por mais 4 semanas, diariamente, via whatsapp, até que ele me buscasse e levasse ao Salgado Filho.

Não tínhamos nada sério, era só uma troca de experiências e favores muito interessante. Tive a chance de, por dois finais de semana, conhecer alguém o mais a fundo que pudesse. Dividimos a mesma cama e os mesmos dias por 6 dias e manias um do outro: roer unhas, acordar no susto, pesadelo, sotaques diferentes, silêncios gigantes e agradáveis. Na primeira noite dormimos empilhados e acordamos na diagonal. Até viajamos. Não juntos, mas viajamos. E além de tudo conheci uma cidade nova.

Algumas vezes não concordamos e discutimos. Mas era expressamente sabido: não tínhamos (nem teríamos condições de ter) nada sério. Claro que eu não levei a sério o fato de não termos nada sério porque eu levo as coisas a sério quando convém. Convinha. Eu o levei a sério, e pior, disse isso a ele.

A proposta havia mudado, a empolgação acabou, fim da história.

Vamos à parte em que faço um intensivão de 2 meses sobre amor na varanda pra tentar entender o que deu errado, enquanto observo o passarinho que come o alpiste que deixo ali todo dia: temos o suficiente um do outro, ele voa às vezes pra me ver e somos felizes. Pra que aprisioná-lo?

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ofertas

- Boa tarde, por favor a senhora Mariana?
- Sou eu, pode falar.
- Estou te ligando sobre duas oportunidades. Você está disponível no momento para que eu possa te dar mais informações?
- Sim. 
- Bom, Mariana, a empresa é mundialmente conhecida, apesar de ser familiar. As suas atividades serão, basicamente: tomar sol, visitar avós, passear com cachorros, fazer trabalhos da faculdade quando precisar, ler livros - do tema que você quiser -, entrar no Facebook, ligar pra sua mãe mais vezes do que o usual, lavar seu carro na garagem, visitar amigas, viajar com a companhia sem data de volta, fazer corrida e caminhada, andar de bicicleta, dar banho em cachorros, fumar na rede e ir ao clube. Requer não gostar de pressão e independência. O traje é à vontade, pode ir de pijama se quiser. Você tem experiência com isso?
- Claro. E qual é o horário?
- Você pode começar suas tarefas a hora que quiser e fazê-las por quanto tempo julgar necessário. O horário de almoço você pode fazer ou não no local e por quanto tempo quiser.
- Interessante. Em que região?
- Temos para todas as regiões, bairros e vilas do Brasil e do mundo. 
- Tem na zona norte?
- Sim. Mas você tem possibilidade de viajar ou residir em outros locais?
- Sim... Me interessa muito. 
- Quer saber sobre a segunda oportunidade?
- Ah, pode ser.
- É uma oportunidade de carreira em uma multinacional. Suas atividades serão...: fazer follow-up de pedidos junto ao gestor, atuar no segmento B2B, cuidar do supply chain e logística, branding, 4 pês, sistema SAP, fazer levantamento de dados junto ao fornecedor, entre outras siglas. É imprescindível ter inglês fluente com certificados TOEFL e/ou TOEIC e espanhol com certificados DELE e/ou CELU feitos há menos de dois anos. Conhecimentos em outro idioma são um diferencial. Deve residir próximo à região sul, ser pró-ativo, resiliente, comunicativo, introspectivo, saber trabalhar em equipe, ter capacidade de concentração, ser multi-tarefas, flexível e ter espírito de liderança, criatividade e perfil analítico. Deve ser comprometido com o trabalho e ter excelente desempenho acadêmico. A possibilidade de efetivação está condicionada às notas da faculdade. Deve ter conhecimentos avançados em Excel, Power Point, Photoshop, Illustrator e sistemas operacionais Windows, Linux e Mac, além conhecimentos intermediários em Google AdWords e subir arquivos em FTP. O horário é das 9h às 15h, com quinze minutos de almoço e restaurante no local. 
- Não tem VR?
- Não, mas o restaurante tem muitas variedades, Mariana. 
- E quais são os benefícios das oportunidades?
- Tempo e dinheiro, respectivamente.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Soía

Soer já foi um verbo muito frequente no Português do séc. XVI (Camões usava muito), com o sentido de nosso costumar: "No tempo em que os homens soíam respeitar sua palavra". No entanto, hoje seu emprego ficou praticamente restrito aos textos e discursos eruditos, em expressões mais ou menos pré-fabricadas do tipo "como sói acontecer", "como soía ocorrer".

Soía ser eu e você
Só ia ser eu e você
E fui só eu
Foi sendo,
Ficou sendo e soendo assim ser
Doía e soía doer
Sabia que só ia assim ser
E quem soeu foi você
Quem viu quem sou eu
Fui eu
Quando você soer saber
Já não vai mais ser

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Rotina

- Alô?
- Nossa, meu! Eu te liguei várias vezes e você não me atendeu!
- Quê?
- Que barulheira aí!!! Eu disse que te liguei mais de dez vezes!
- Tem muita gente aqui em casa. Vieram pro chá de bebê!
- Como assim?! Chá de bebê de quem, amor?
- O meu.
- Como assim? P***@, você tá grávida?
- Sim, Luis. Gêmeos, 4 meses.
- Impossível, quando ele nascer, a lua vai tá em Escorpião.
- Eu vou ter gêmeos. O signo deles, os dois, será Escorpião.
- Não to entendendo. […] Por que você só me contou agora?
- Por um acaso você me cumprimentou ultimamente?
-  A gente mora junto, a gente divide o mesmo teto! Não preciso te perguntar "Bom dia, como você tá?"
- Eu teria te respondido: "Grávida, amor, obrigada por perguntar".

que mania

de não maniar.
- Então, quando foi a sua primeira vez com ele?
- A minha?
- Isso, a sua.
- Ah, foi no fim do ano passado...
- Mas como?! Você já tem até 3 filhos!
- Você está me perguntando sobre a minha primeira vez ou sobre a primeira vez dele?