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quarta-feira, 4 de maio de 2011

...E crescer dói

Numa noite fria de três de julho de 1992 nasceu um bebê prematuro, de parto cesáreo, feio, bochechudo e reclamão. Era eu, Gabriela.
Minha mãe quase morreu porque as anestesias não pegaram, eu quase morri e tive que ser arrancada com um fórceps de dentro da barriga dela, embora este artifício só seja necessário em partos normais. Enfim, após alguns dias, nossa dor se foi.
[...] Fiz curso pré-vestibulinho, abandonei. Passei nos vestibulinhos, estudei no Liceu, meus pais se divorciaram, fui expulsa do Liceu. Fui para a FECAP, me adaptei bem, minha mãe vendeu a sociedade na empresa e tivemos uma má fase familiar naquele ano.
Terminei o curso técnico, apresentei o TCC aos trancos e barrancos, tirei 8, passei de ano direto, perdi a inscrição da FUVEST e não passei na PUC. Comecei o cursinho no Etapa. Abandonei, mas prestei vestibular. Fui aprovada na PUC e na USP. Escolhi a USP e faço Marketing. Ganhei meu carro e não sei dirigir fora do perímetro da região, pego ônibus, metrô, trem e trem para ir à faculdade por conta disso. No setor amoroso estou plenamente satisfeita, na faculdade estou bem, na vida social estou ótima. Procuro emprego e não acho. Acho até que os empregos estão na mesma dimensão que o outro pé da meia, tampas de canetas bic, isqueiros e guarda-chuvas. Desempregada de verdade agora, sem mamãe. Essa é minha biografia sucinta até o momento.
Ninguém se lembra da dor que sentiu ao nascer, mas é fato que não é indolor. Cortar o cordão umbilical, depois respirar com os próprios pulmões e realizar suas funções vitais sozinho não é fácil. A partir do momento em que as funções vitais se tornam fichinha, vêm as necessidades: andar, falar, escrever, estudar e até mesmo dirigir. E depois das necessidades, vêm os desejos... o que não vem é o dinheiro. Sinto como se alguém estivesse me tirando da barriga da minha mãe de novo, cortando o cordão umbilical psicológico, me pondo num moisés de palha e me arremesando em direção ao rio Tietê, passando por muita merda até encontrar alguém que me adote para que eu finalmente cresça.