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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Amarelo

Vou sair de casa
Me visto vestido
No passo, na pressa
Desisto, me dispo
Me visto e revisto
Carteira, cartão

Te levo pra casa
A saia na sala
No passo, na pressa
Carteira na escada
Sapato no quarto
Blusinha no chão

Te deito, me deito
Te dispo, me dispo
No passo, na pressa
Que dor de cabeça
Me deixo na cama
Te deixo na mão.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Ousar ounão

Ousados têm a memória seletiva. Quem ousa não se supera porque a superação é fruto de falhas. E o ousado já se esqueceu de que fracassou um dia, porque se se lembrasse não ousaria mais. Então ele seria um arriscador.

O arriscador joga cara ou coroa. O ousado joga cara a tapa. O arriscador oferece tudo, vende a mãe. O ousado vende a mãe também, só em último caso. Mas ele entrega. O que arrisca não sabe o que fazer com seus planos depois do sucesso ou fracasso. O ousado já tem planos de B a Z caso o A não funcione. 

O ousado viaja pra um camping sem barraca. O arriscador também. O ousado arruma uma barraca com colchão e cia. O arriscador arruma um saco de dormir e dorme sozinho no chão e sereno. Depois reclama. O arriscador trai. O ousado termina e some.

O arriscador pensa em alternativas. O ousado pensa em dissertativas, sai de situações constrangedoras como um stripper sai do bolo numa despedida de solteira. O arriscador se mete em maus lençóis depois se arrepende. O ousado se mete em lençóis de seda depois veste roupão e chinelinho.

O arriscador semicerra os olhos na hora decisiva. O ousado mantém os olhos abertos como se já soubesse – e sabe – o que fazer mas finge que não porque gosta de blefar e só ele sabe que blefa. Ele blefa pra si mesmo. O arriscador é conduzido pelas circunstâncias. O ousado conduz a todas elas e se diverte com a previsibilidade.

Para o arriscador, quando algo dá errado, dá merda mesmo e não tem o que fazer senão lamentar e jamais repetir o (mal)feito. Para o ousado, a surpresa é a oportunidade de fazer algo novo e ele repete o feito porque o desfecho pode ser outro. Ele gosta de se meter em roubadas, mas já pensou na solução. Quem ousa tem casos mal resolvidos de propósito, só pra ter algo pra chamar de eterno. 

O arriscador pensa nas perguntas que fará, o ousado pensa nas respostas que virão das perguntas, caso as faça. O que arrisca é inseguro - por isso "arriscador" não existe. Quem ousa é ousado. Engana-se quem pensa que o ousado não pensou. Se quem não arrisca não petisca, quem não ousa não sabe o que perdeu. 

domingo, 23 de novembro de 2014

Ela chegou!

Sei quando ela chega de mansinho em casa, durante a madrugada. Sei que ela não desliga a música do carro porque ela quer cantar até o final. Desliga o carro, o som, gira devagarzinho a maçaneta e entra. Não tranca o carro porque não ouço o alarme. Fecha a porta e quando gira a maçaneta pelo lado de dentro, ela range. Sobe o primeiro e segundo degraus numa boa. Mas o terceiro estala um pouco, o quarto degrau estala bem alto. Nos degraus seguintes, a solas do chinelo cheias de cerveja pisada colam no verniz e fazem barulho. Ela fica num dilema entre subir a escada rápido, fazendo barulho; ou devagar, colando e descolando as solas no verniz. Se tirasse os tênis era só subir devagar, de meia. Pena que eu não consigo avisar. Ela chega à porta do quarto e abre a porta, que range muito.

Quando ela, finalmente, senta na cadeira e liga esse computador eu começo a latir e acordo geral pra avisar que ela chegou.

Atenciosamente,

Mutley

sábado, 22 de novembro de 2014

Varandeando

Procurei um jeito de expressar a minha sinceridade e, às vezes, a sua falta.

A varanda de casa, o lugar de onde eu pulava na madrugada pra ver meu portuga na casa ao lado. Foi ali onde, dois anos depois, o gaúcho se balançou na minha rede enquanto fumávamos, um mês depois de termos nos visto uma vez na vida... e ele balançava com tanta calma que até me contive pra não avisar que os parafusos mal colocados no teto provavelmente sustentariam 50 quilos . Eu fiquei ali quieta entre um monossílabo e outro. Deu tudo certo, ele não caiu da rede, mas eu caí na rede dele. Eu gosto dele, mas pra vê-lo não é só pular uma varanda.

Nos conhecemos e ficamos por meia hora. Três semanas depois, no meu aniversário, ele comprou uma passagem pra vir me ver no fim do mês. Conversei mais com ele e antes de ele vir comprei uma passagem pra vê-lo um mês depois que ele viesse. Saí de casa quando o avião passava por Curitiba e cheguei em Congonhas quando ele aterrissou em São Paulo. Levei-o em Guarulhos de pijama na segunda de manhã e conversamos por mais 4 semanas, diariamente, via whatsapp, até que ele me buscasse e levasse ao Salgado Filho.

Não tínhamos nada sério, era só uma troca de experiências e favores muito interessante. Tive a chance de, por dois finais de semana, conhecer alguém o mais a fundo que pudesse. Dividimos a mesma cama e os mesmos dias por 6 dias e manias um do outro: roer unhas, acordar no susto, pesadelo, sotaques diferentes, silêncios gigantes e agradáveis. Na primeira noite dormimos empilhados e acordamos na diagonal. Até viajamos. Não juntos, mas viajamos. E além de tudo conheci uma cidade nova.

Algumas vezes não concordamos e discutimos. Mas era expressamente sabido: não tínhamos (nem teríamos condições de ter) nada sério. Claro que eu não levei a sério o fato de não termos nada sério porque eu levo as coisas a sério quando convém. Convinha. Eu o levei a sério, e pior, disse isso a ele.

A proposta havia mudado, a empolgação acabou, fim da história.

Vamos à parte em que faço um intensivão de 2 meses sobre amor na varanda pra tentar entender o que deu errado, enquanto observo o passarinho que come o alpiste que deixo ali todo dia: temos o suficiente um do outro, ele voa às vezes pra me ver e somos felizes. Pra que aprisioná-lo?

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ofertas

- Boa tarde, por favor a senhora Mariana?
- Sou eu, pode falar.
- Estou te ligando sobre duas oportunidades. Você está disponível no momento para que eu possa te dar mais informações?
- Sim. 
- Bom, Mariana, a empresa é mundialmente conhecida, apesar de ser familiar. As suas atividades serão, basicamente: tomar sol, visitar avós, passear com cachorros, fazer trabalhos da faculdade quando precisar, ler livros - do tema que você quiser -, entrar no Facebook, ligar pra sua mãe mais vezes do que o usual, lavar seu carro na garagem, visitar amigas, viajar com a companhia sem data de volta, fazer corrida e caminhada, andar de bicicleta, dar banho em cachorros, fumar na rede e ir ao clube. Requer não gostar de pressão e independência. O traje é à vontade, pode ir de pijama se quiser. Você tem experiência com isso?
- Claro. E qual é o horário?
- Você pode começar suas tarefas a hora que quiser e fazê-las por quanto tempo julgar necessário. O horário de almoço você pode fazer ou não no local e por quanto tempo quiser.
- Interessante. Em que região?
- Temos para todas as regiões, bairros e vilas do Brasil e do mundo. 
- Tem na zona norte?
- Sim. Mas você tem possibilidade de viajar ou residir em outros locais?
- Sim... Me interessa muito. 
- Quer saber sobre a segunda oportunidade?
- Ah, pode ser.
- É uma oportunidade de carreira em uma multinacional. Suas atividades serão...: fazer follow-up de pedidos junto ao gestor, atuar no segmento B2B, cuidar do supply chain e logística, branding, 4 pês, sistema SAP, fazer levantamento de dados junto ao fornecedor, entre outras siglas. É imprescindível ter inglês fluente com certificados TOEFL e/ou TOEIC e espanhol com certificados DELE e/ou CELU feitos há menos de dois anos. Conhecimentos em outro idioma são um diferencial. Deve residir próximo à região sul, ser pró-ativo, resiliente, comunicativo, introspectivo, saber trabalhar em equipe, ter capacidade de concentração, ser multi-tarefas, flexível e ter espírito de liderança, criatividade e perfil analítico. Deve ser comprometido com o trabalho e ter excelente desempenho acadêmico. A possibilidade de efetivação está condicionada às notas da faculdade. Deve ter conhecimentos avançados em Excel, Power Point, Photoshop, Illustrator e sistemas operacionais Windows, Linux e Mac, além conhecimentos intermediários em Google AdWords e subir arquivos em FTP. O horário é das 9h às 15h, com quinze minutos de almoço e restaurante no local. 
- Não tem VR?
- Não, mas o restaurante tem muitas variedades, Mariana. 
- E quais são os benefícios das oportunidades?
- Tempo e dinheiro, respectivamente.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Soía

Soer já foi um verbo muito frequente no Português do séc. XVI (Camões usava muito), com o sentido de nosso costumar: "No tempo em que os homens soíam respeitar sua palavra". No entanto, hoje seu emprego ficou praticamente restrito aos textos e discursos eruditos, em expressões mais ou menos pré-fabricadas do tipo "como sói acontecer", "como soía ocorrer".

Soía ser eu e você
Só ia ser eu e você
E fui só eu
Foi sendo,
Ficou sendo e soendo assim ser
Doía e soía doer
Sabia que só ia assim ser
E quem soeu foi você
Quem viu quem sou eu
Fui eu
Quando você soer saber
Já não vai mais ser

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Rotina

- Alô?
- Nossa, meu! Eu te liguei várias vezes e você não me atendeu!
- Quê?
- Que barulheira aí!!! Eu disse que te liguei mais de dez vezes!
- Tem muita gente aqui em casa. Vieram pro chá de bebê!
- Como assim?! Chá de bebê de quem, amor?
- O meu.
- Como assim? P***@, você tá grávida?
- Sim, Luis. Gêmeos, 4 meses.
- Impossível, quando ele nascer, a lua vai tá em Escorpião.
- Eu vou ter gêmeos. O signo deles, os dois, será Escorpião.
- Não to entendendo. […] Por que você só me contou agora?
- Por um acaso você me cumprimentou ultimamente?
-  A gente mora junto, a gente divide o mesmo teto! Não preciso te perguntar "Bom dia, como você tá?"
- Eu teria te respondido: "Grávida, amor, obrigada por perguntar".

que mania

de não maniar.
- Então, quando foi a sua primeira vez com ele?
- A minha?
- Isso, a sua.
- Ah, foi no fim do ano passado...
- Mas como?! Você já tem até 3 filhos!
- Você está me perguntando sobre a minha primeira vez ou sobre a primeira vez dele?

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Um lugar legal pra encontrar gente na mesma que você

Lá tinha um beco iluminado por uma só lâmpada amarela desses postes urbanos, altos. Mal dava pra ver o fim da viela, mas via uma vulto sumindo, aparentemente recém-chegado ao local. A silhueta era feminina. Pestanejou, mas quando começou a caminhar, imaginou o sabor e o dissabor do que estava por vir naquele lugar à semi-meia-luz.

Chegou, dava pra ouvir ainda o grave do som que vinha de dentro. Na porta, várias pessoas recebiam-no informalmente, com um sorriso que ele conhecia por parecer ser dele mesmo. Entrou. Um balcão, escuridão, várias pessoas e música. Uma mistura de bar com balada, mas pelo menos dava pra ouvir as vozes lá de dentro. Ainda não entendia por que foi parar lá, mas já que tinha bebida, pediu um whisky ao garçom "sem gelo, copo alto". Procurou um cardápio pra ver quanto era, e nada. Perguntou ao garçom e, quando voltou disse "nada". Ele não disse nada, veja bem, disse "nada". E não cobrou.

Mesmo assustado, seguiu andando no meio das pessoas. E parecia que o lugar não tinha um público-alvo específico. Tinha sertanejeiros, roqueiros, forrozeiros, pagodeiros, eletrônicos, tudo junto. Claro que tentou achar uma semelhança pra ver como todos eles, misteriosamente, foram parar no mesmo lugar.

Alguns reclamavam que foram parar ali depois de uma briga de trânsito e também havia um bocado de traídos, uma porção de traidores e outros que ainda não entendiam como foram parar lá, apesar de já saberem por quê. E outros batiam carteirinha no bar, alguns deles já eram garçons.

Pediu mais uma dose. E outra. Se entrosou num grupo. Dançou. Bebeu mais e caiu. E recobrou a consciência quando viu aquela mesma silhueta que vira na viela quando chegou despretensioso. Aí o mundo girou em torno da mão estendida destinada a ajudá-lo. Com o puxão pra levantar, já emendou sua apresentação:

- Prazer, Carolina! - com um sorriso
- Brigado! Eu, Caio.
- Já vi que caiu. Mas qual é seu nome?
- Caio.
- Com frequência?
- Meu nome é Caio.
- Ah! Que pertinente! O que você tá fazendo aqui?

Conversou mais um pouco e ele nem se lembra o quê, porque achar o seu porquê surtiu mais efeito que o restante do assunto. Pensou muito e se lembrou do celular quebrado, pôs a mão no bolso e confirmou. Lembrou do carro vermelho e da namorada, Raquel, ao volante. E de uma discussão, do arremesso de algum eletrônico. Depois desceu do carro. E de repente apareceu na viela, sozinho.

Antes mesmo de entender o porquê de estar ali, era cedo e ele já não mais estava lá. Acordou numa cama desconhecida, com uma mulher aparentemente desconhecida. Mas a nudez matinal enganava a aparência e conferia um ar de intimidade. Ele a havia conhecido, achava:

-Bom dia, Caio! Dessa vez você não caiu. Tô saindo, tenho que trabalhar. Se vira aí, tem café, chocolate, enfim... Fica à vontade, deixa a chave na portaria pra mim quando sair.

E se despediu com um beijo na testa. Depois de "amnéticos" 15 minutos, Caio se lembrou de tudo e nunca mais se esqueceu. Era a Carol. Aliás, se condenou eternamente por tê-la olhado com aquela cara confusa. "Ah, se eu tivesse me lembrado antes...". Misteriosamente, após ir embora, nunca mais achou de novo o endereço e não sabia como ou onde encontrá-la outra vez.

...

Raquel, a [agora ex] namorada, ainda pensa por que o Caio sumiu e não voltou mais depois daquela discussão, apesar de ter a resposta sobre o seu paradeiro sem saber. E ligou várias vezes, a noite inteira: "suachamadaestásendoencaminhadaparaacaixademensagenseestarásujeitaàcobrançaapósosinaltuuu."
- Por que eu fui mandá-lo pra puta que pariu?

É, Raquel... Ele foi. E conheceu alguém por lá.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Mais curto

Quanto mais curto o corredor, mais pessoas;
Quanto mais curta a fila, mais gente no fim;
Quanto mais curta a saia, mais interesse;
Quanto mais curto o caminho,  mais carros;
Quanto mais curto o texto, mais leituras;
Quanto mais curto tudo,
Mais curto não curtir nada.

Sexta-feira

- Terminei, e dessa vez foi de vez!
- Nem vem com essa merda de novo! Já ouvi milhares de vezes e você nunca faz isso.
- Mas agora é sério! Uma hora tem que ser sério, né?
- E como você tá?
- Bem. Agora to aqui em casa fumando e pronta pra essa sexta-feira!
- Vem me buscar aqui?
- Não posso, to fumando.
- Fumando? Achei que fosse cigarro... Não é?
- Não, mas eu só acendi pra ver se tinha funcionado o que fiz.
- E aí?
- E aí que funcionou, por isso não posso ir te buscar aí senão eu bato o carro. Pega o 1786 e vem pra cá!

terça-feira, 11 de março de 2014

391 dias entre terça e quarta

Soterrada em mais de mil páginas de estudos, aturdida pelas consequências de um potencial fracasso, absorta em resumos e cansada de me preocupar tanto, decidi aceitar o convite pra conhecer o carnaval de rua de São Paulo. Não há nada de mais no passeio: pessoas andando nas ruas atrás de um trio, cabeleira do Zezé, cervejas e alguns bares pelo caminho. Não era pelo programa, e sim por quem fez o convite.

E foi lá que o encontrei em uma esquina da Benedito Calixto em meio a uma multidão, um tanto quanto ácido. Já conhecia a peça: nos conhecemos em 2007 e ficamos; namoramos em 2008 e terminamos não sei o porquê, só sei que comecei a fumar; nos envolvemos em 2010 e ele resolveu ir embora do país; 2013 tinha tudo pra ser diferente. Em meio a uma cisma ciumenta ele me beijou ao som de "Bésame mucho" que vinha do bloco. Nos agarramos num cantinho, eu apoiada num poste - porque a força que ele fazia contra mim era tal que se não tivesse um poste ali, estaríamos no chão sendo pisoteados pela corja que seguia o bloco. Até que o bloco foi embora e achamos um bar, uma pausa pra conversamos até que finalmente nos deitássemos em algum lugar. Essa conversa terminou num colchão, na sala da casa dele e acordei tão feliz naquela terça-feira de Carnaval quanto acordava no dia de Natal aos 5 anos.

Não precisávamos de mais nada, exceto que eu formalizasse o término do meu namoro com o ex desavisado - o quinto que terminava em 7 anos por causa dele. Na semana seguinte, ele se mudou para morar sozinho, comprou uma cama de casal e uma TV. E fez a exigência de que eu me livrasse daquele colchão de promoção que havia comprado, caso contrário não dormiria mais na minha casa aos finais de semana - ainda devo algumas parcelas. Mesmo após pouco mais de 2 anos sem envolvimento afetivo, entramos na vida um do outro e eu lavei toda a louça da mudança, limpei móveis, aprendi a cozinhar, a aspirar quinas, joguei fora as tralhas - e aproveitei pra jogar também aquele cartão infeliz da ex alemã. Em pouco tempo morávamos juntos de segunda a quinta na casa dele, no centro; e aos finais de semana na minha, perto da serra. Lembra do estudo no começo da história? Passei! Mudei de emprego, ele me ajudou - e a foto do Wando que ele sugeriu foi quase que responsável pela minha admissão. Saí da empresa da minha mãe, entrei na rádio Mix e em seguida ele foi contratado por ela. Quatro meses e uma bebedeira depois, resolvemos namorar. Na portaria do prédio ele disse que queria me pedir em namoro quando estivesse sóbrio, mas não aguentou e pediu antes. No dia seguinte o lembrei de que namorávamos e ele pediu de novo. Vale ressaltar que também refresquei sua memória quando o lembrei de que tinha dito que me amava. E ele repetiu e me deu um anel lindo que usamos por três meses até começar o drama.

Fomos ao cinema, às lojas de materiais de construção, de móveis, baladas, bares, hamburgueria, churrascaria, fondue, japonês, italiano; ganhamos uns quilos físicos. E os quilos mentais vinham do peso na consciência depois que brigávamos por motivos banais, e mais ainda quando brigávamos por um motivo relevante. Entre uma briga e outra, um escorregão sem explicação. E uma reação à altura. Baixa. E volta, esquece, lembra, viaja pro Rio de Janeiro, volta, termina, volta, termina sabe Deus quantas vezes nessa ponte aérea sentimental.

Em dezembro, enfim, voltamos. Fomos ao meu show preferido, não o preferido dele. Talvez depois de todo o desgaste eu não estivesse preparada para levá-lo a sério novamente por conta do que havia acontecido. Até que percebi que ele queria ser levado a sério e ser recíproco. Destino do ano novo: Rio de Janeiro, ironia do destino. E a partir daí, uma tensão nunca antes vivenciada, no melhor e pior sentido possível. No melhor, inimaginável, quase que em outro nível espiritual devido a uma compra feita no mercado negro que rendeu alguns finais de semana semi-memoráveis em janeiro. E no pior sentido também. Todas aquelas horas que passávamos rindo, abraçados, bebendo, fumando, vendo TV, eram o que rezava e pedia toda noite para que se repetissem sem interrupções dramáticas. Nesse ritmo suave fizemos um ano. Até que próximo ao Carnaval ele precisou ir ao Rio a trabalho. Fui também, uma semana depois, como voluntária num projeto que não andava bem. Foram poucos os momentos que tivemos a sós. Reconheço que ele tenha se esforçado pra evitar uma briga, um conflito sequer. Inevitavelmente, veio mais uma crise, derradeira, telefônica, Rio-São Paulo.

Saímos para colocar os pingos nos ís no final de semana seguinte ao escarcéu telefônico. Tudo começou com uma conversa acalorada, um almoço polonês e um copo de cerveja. Duas horas depois, um abraço apertado que precisaria de mais um poste atrás de mim pra me segurar, um beijo que não dávamos desde a última vez que tínhamos voltado e uma vontade de estar junto de novo antes de separar de vez. Inevitavelmente, cedi ao momento. E momentos depois, chorando, implorei pra sairmos daquele lugar antes que a minha dignidade fosse embora pelo ralo da hidromassagem e eu dissesse que não deveríamos nos separar, até ouvir uma resposta extremamente racional - porque tudo o que é racional me soa extremo - e lamentar até o meu último suspiro de vida por ter aberto a boca num sopro de emoção. Antes não tivesse aberto o coração num desses sopros.

Depois, amigavelmente abraçados fomos comer um hambúrguer e o pedi que me acompanhasse em seguida, de moto e eu de carro, até perto da minha casa porque era meia-noite de um domingo e sabe lá o que me espera na rua. Não disse exatamente onde ele poderia me deixar, mas sabia que em algum momento me deixaria e torcia para que aquilo não acontecesse nunca. Desacelerei e, assim como a nossa relação, quanto mais tempo demorava para que ele fosse embora de vez, mais eu sofria.  Num dos cruzamentos da avenida Cruzeiro do Sul, vi o farol da moto sumir da vista do meu retrovisor numa velocidade anacrônica. Ele me deixou. Ao som da mesma banda* em que ele me acompanhou no show, chorei soluçadamente lembrando quanta coisa boa havia acontecido de uma terça de Carnaval à quarta de cinzas do ano seguinte.

E foi aí que me vi tomada por um sentimento de apego e desapego na mesma medida, analogamente à situação em que me encontrava no carro naquele instante. Apego ao que eu deveria fazer dali pra frente: continuar a minha caminhada até encontrar um lugar seguro. No caso do carro e daquele momento, até chegar em casa. No meu caso, até chegar em mim mesma; e o desapego de não querer voltar pra casa e ir comprar uma passagem só de volta pra um lugar ao qual eu nunca tenha ido, fazendo jus a uma moto que vira um cruzamento e deixa a tristeza e a felicidade no caminho.

Especialistas poderiam diagnosticar transtorno bipolar se ouvissem a minha história, anseio e receio simultâneos. Eu, com a minha vasta experiência em rompimentos, preferiria chamar essa controvérsia de medo-pós-rompimento-de-seguir-com-a-própria-vida-sem-que-corra-o-risco-de-voltar-e-tudo-parecer-perfeito-até-que-ambos-descubram-o-que-fizeram-no-desespero-da-separação-momentânea.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Francamente,

Eu achei que tivesse um homem em você
E tudo o que encontrei foi machismo
Achismo o meu que achei,
Franca e fracamente,
que tivesse um homem em você .

.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O Derby Light

Quando eu era pequena era permitido fumar em qualquer lugar... e todo mundo fumava, nada de dizer que isso tem cara dos anos 1970.

Ainda me lembro, em 1990 e alguma coisa, do comercial do Derby Light e o jingle:

"Derby Light chegou pra conquistar o Brasil... e com o Derby o seu sabooor!"
(Procurei o vídeo no Google, mas não encontrei)

Até os meus 7 anos e enquanto o meu avô ainda podia fumar, essa era a minha referência de cigarro. Se um dia eu fosse fumar, fumaria o Derby com muito orgulho e copiaria a expressão do meu avô fumando o "pijaminha" (aquele antes de dormir). Imaginava a cena, não curtia o tal do cowboy porque ele não era do Brasil, pensava.

O tempo passou e em 2005 resolvi experimentar um cigarro pra ter uma empatia com a minha mãe. Fomos à padaria, eu e mais duas amigas e pedimos... pasmem, três Derby Light soltos, R$ 0,15! E na pracinha consumamos o ato e consumimos o cigarro... Terrível.

A partir de então virei anti-tabagista, com a sensação de que tinha atirado meia dúzia de biribinhas garganta abaixo. E descobri que não era preciso ter muito orgulho pra fumar um Derby; e sim, muito pulmão ou abstinência.

Aos 16 fui atingida por uma desilusão amorosa e passava o dia no bar, fumando e bebendo.

Aos 18 voltei com esse cara. E também aos 20. Hoje estou com ele e com o Marlboro.

Preciso deixar isso registrado porque se me desiludir de novo, eu juro, me afastem do Derby!

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Ensinando a se desculpar

- Não, agora tá tudo bem. Só queria que me pedisse desculpa.
- Desculpa por eu ter te magoado, não queria.
- Por eu ter me magoado?
- É, desculpa.
- Mas a desculpa não é por ter me magoado. O que você fez me magoou, e é pelo que fez que você deveria se desculpar. Então, se eu não tivesse me magoado, você não sentiria culpa por ter feito algo errado?
- Não entendi.
- Deixa. Desculpa, não queria ter feito você se sentir assim.
- Mas eu to me sentindo assim porque você me forçou a pedir desculpa. Não adianta se desculpar por ter me feito sentir assim.
- Exatamente, era isso que eu tentava te explicar.
- Ah, entendi. Desculpa.
- Tá, desculpa também.