Soterrada em mais de mil páginas de estudos, aturdida pelas consequências de um potencial fracasso, absorta em resumos e cansada de me preocupar tanto, decidi aceitar o convite pra conhecer o carnaval de rua de São Paulo. Não há nada de mais no passeio: pessoas andando nas ruas atrás de um trio, cabeleira do Zezé, cervejas e alguns bares pelo caminho. Não era pelo programa, e sim por quem fez o convite.
E foi lá que o encontrei em uma esquina da Benedito Calixto em meio a uma multidão, um tanto quanto ácido. Já conhecia a peça: nos conhecemos em 2007 e ficamos; namoramos em 2008 e terminamos não sei o porquê, só sei que comecei a fumar; nos envolvemos em 2010 e ele resolveu ir embora do país; 2013 tinha tudo pra ser diferente. Em meio a uma cisma ciumenta ele me beijou ao som de "Bésame mucho" que vinha do bloco. Nos agarramos num cantinho, eu apoiada num poste - porque a força que ele fazia contra mim era tal que se não tivesse um poste ali, estaríamos no chão sendo pisoteados pela corja que seguia o bloco. Até que o bloco foi embora e achamos um bar, uma pausa pra conversamos até que finalmente nos deitássemos em algum lugar. Essa conversa terminou num colchão, na sala da casa dele e acordei tão feliz naquela terça-feira de Carnaval quanto acordava no dia de Natal aos 5 anos.
Não precisávamos de mais nada, exceto que eu formalizasse o término do meu namoro com o ex desavisado - o quinto que terminava em 7 anos por causa dele. Na semana seguinte, ele se mudou para morar sozinho, comprou uma cama de casal e uma TV. E fez a exigência de que eu me livrasse daquele colchão de promoção que havia comprado, caso contrário não dormiria mais na minha casa aos finais de semana - ainda devo algumas parcelas. Mesmo após pouco mais de 2 anos sem envolvimento afetivo, entramos na vida um do outro e eu lavei toda a louça da mudança, limpei móveis, aprendi a cozinhar, a aspirar quinas, joguei fora as tralhas - e aproveitei pra jogar também aquele cartão infeliz da ex alemã. Em pouco tempo morávamos juntos de segunda a quinta na casa dele, no centro; e aos finais de semana na minha, perto da serra. Lembra do estudo no começo da história? Passei! Mudei de emprego, ele me ajudou - e a foto do Wando que ele sugeriu foi quase que responsável pela minha admissão. Saí da empresa da minha mãe, entrei na rádio Mix e em seguida ele foi contratado por ela. Quatro meses e uma bebedeira depois, resolvemos namorar. Na portaria do prédio ele disse que queria me pedir em namoro quando estivesse sóbrio, mas não aguentou e pediu antes. No dia seguinte o lembrei de que namorávamos e ele pediu de novo. Vale ressaltar que também refresquei sua memória quando o lembrei de que tinha dito que me amava. E ele repetiu e me deu um anel lindo que usamos por três meses até começar o drama.
Fomos ao cinema, às lojas de materiais de construção, de móveis, baladas, bares, hamburgueria, churrascaria, fondue, japonês, italiano; ganhamos uns quilos físicos. E os quilos mentais vinham do peso na consciência depois que brigávamos por motivos banais, e mais ainda quando brigávamos por um motivo relevante. Entre uma briga e outra, um escorregão sem explicação. E uma reação à altura. Baixa. E volta, esquece, lembra, viaja pro Rio de Janeiro, volta, termina, volta, termina sabe Deus quantas vezes nessa ponte aérea sentimental.
Em dezembro, enfim, voltamos. Fomos ao meu show preferido, não o preferido dele. Talvez depois de todo o desgaste eu não estivesse preparada para levá-lo a sério novamente por conta do que havia acontecido. Até que percebi que ele queria ser levado a sério e ser recíproco. Destino do ano novo: Rio de Janeiro, ironia do destino. E a partir daí, uma tensão nunca antes vivenciada, no melhor e pior sentido possível. No melhor, inimaginável, quase que em outro nível espiritual devido a uma compra feita no mercado negro que rendeu alguns finais de semana semi-memoráveis em janeiro. E no pior sentido também. Todas aquelas horas que passávamos rindo, abraçados, bebendo, fumando, vendo TV, eram o que rezava e pedia toda noite para que se repetissem sem interrupções dramáticas. Nesse ritmo suave fizemos um ano. Até que próximo ao Carnaval ele precisou ir ao Rio a trabalho. Fui também, uma semana depois, como voluntária num projeto que não andava bem. Foram poucos os momentos que tivemos a sós. Reconheço que ele tenha se esforçado pra evitar uma briga, um conflito sequer. Inevitavelmente, veio mais uma crise, derradeira, telefônica, Rio-São Paulo.
Saímos para colocar os pingos nos ís no final de semana seguinte ao escarcéu telefônico. Tudo começou com uma conversa acalorada, um almoço polonês e um copo de cerveja. Duas horas depois, um abraço apertado que precisaria de mais um poste atrás de mim pra me segurar, um beijo que não dávamos desde a última vez que tínhamos voltado e uma vontade de estar junto de novo antes de separar de vez. Inevitavelmente, cedi ao momento. E momentos depois, chorando, implorei pra sairmos daquele lugar antes que a minha dignidade fosse embora pelo ralo da hidromassagem e eu dissesse que não deveríamos nos separar, até ouvir uma resposta extremamente racional - porque tudo o que é racional me soa extremo - e lamentar até o meu último suspiro de vida por ter aberto a boca num sopro de emoção. Antes não tivesse aberto o coração num desses sopros.
Depois, amigavelmente abraçados fomos comer um hambúrguer e o pedi que me acompanhasse em seguida, de moto e eu de carro, até perto da minha casa porque era meia-noite de um domingo e sabe lá o que me espera na rua. Não disse exatamente onde ele poderia me deixar, mas sabia que em algum momento me deixaria e torcia para que aquilo não acontecesse nunca. Desacelerei e, assim como a nossa relação, quanto mais tempo demorava para que ele fosse embora de vez, mais eu sofria. Num dos cruzamentos da avenida Cruzeiro do Sul, vi o farol da moto sumir da vista do meu retrovisor numa velocidade anacrônica. Ele me deixou. Ao som da mesma banda* em que ele me acompanhou no show, chorei soluçadamente lembrando quanta coisa boa havia acontecido de uma terça de Carnaval à quarta de cinzas do ano seguinte.
E foi aí que me vi tomada por um sentimento de apego e desapego na mesma medida, analogamente à situação em que me encontrava no carro naquele instante. Apego ao que eu deveria fazer dali pra frente: continuar a minha caminhada até encontrar um lugar seguro. No caso do carro e daquele momento, até chegar em casa. No meu caso, até chegar em mim mesma; e o desapego de não querer voltar pra casa e ir comprar uma passagem só de volta pra um lugar ao qual eu nunca tenha ido, fazendo jus a uma moto que vira um cruzamento e deixa a tristeza e a felicidade no caminho.
Especialistas poderiam diagnosticar transtorno bipolar se ouvissem a minha história, anseio e receio simultâneos. Eu, com a minha vasta experiência em rompimentos, preferiria chamar essa controvérsia de medo-pós-rompimento-de-seguir-com-a-própria-vida-sem-que-corra-o-risco-de-voltar-e-tudo-parecer-perfeito-até-que-ambos-descubram-o-que-fizeram-no-desespero-da-separação-momentânea.