Lá tinha um beco iluminado por uma só lâmpada amarela desses postes urbanos, altos. Mal dava pra ver o fim da viela, mas via uma vulto sumindo, aparentemente recém-chegado ao local. A silhueta era feminina. Pestanejou, mas quando começou a caminhar, imaginou o sabor e o dissabor do que estava por vir naquele lugar à semi-meia-luz.
Chegou, dava pra ouvir ainda o grave do som que vinha de dentro. Na porta, várias pessoas recebiam-no informalmente, com um sorriso que ele conhecia por parecer ser dele mesmo. Entrou. Um balcão, escuridão, várias pessoas e música. Uma mistura de bar com balada, mas pelo menos dava pra ouvir as vozes lá de dentro. Ainda não entendia por que foi parar lá, mas já que tinha bebida, pediu um whisky ao garçom "sem gelo, copo alto". Procurou um cardápio pra ver quanto era, e nada. Perguntou ao garçom e, quando voltou disse "nada". Ele não disse nada, veja bem, disse "nada". E não cobrou.
Mesmo assustado, seguiu andando no meio das pessoas. E parecia que o lugar não tinha um público-alvo específico. Tinha sertanejeiros, roqueiros, forrozeiros, pagodeiros, eletrônicos, tudo junto. Claro que tentou achar uma semelhança pra ver como todos eles, misteriosamente, foram parar no mesmo lugar.
Alguns reclamavam que foram parar ali depois de uma briga de trânsito e também havia um bocado de traídos, uma porção de traidores e outros que ainda não entendiam como foram parar lá, apesar de já saberem por quê. E outros batiam carteirinha no bar, alguns deles já eram garçons.
Pediu mais uma dose. E outra. Se entrosou num grupo. Dançou. Bebeu mais e caiu. E recobrou a consciência quando viu aquela mesma silhueta que vira na viela quando chegou despretensioso. Aí o mundo girou em torno da mão estendida destinada a ajudá-lo. Com o puxão pra levantar, já emendou sua apresentação:
- Prazer, Carolina! - com um sorriso
- Brigado! Eu, Caio.
- Já vi que caiu. Mas qual é seu nome?
- Caio.
- Com frequência?
- Meu nome é Caio.
- Ah! Que pertinente! O que você tá fazendo aqui?
Conversou mais um pouco e ele nem se lembra o quê, porque achar o seu porquê surtiu mais efeito que o restante do assunto. Pensou muito e se lembrou do celular quebrado, pôs a mão no bolso e confirmou. Lembrou do carro vermelho e da namorada, Raquel, ao volante. E de uma discussão, do arremesso de algum eletrônico. Depois desceu do carro. E de repente apareceu na viela, sozinho.
Antes mesmo de entender o porquê de estar ali, era cedo e ele já não mais estava lá. Acordou numa cama desconhecida, com uma mulher aparentemente desconhecida. Mas a nudez matinal enganava a aparência e conferia um ar de intimidade. Ele a havia conhecido, achava:
-Bom dia, Caio! Dessa vez você não caiu. Tô saindo, tenho que trabalhar. Se vira aí, tem café, chocolate, enfim... Fica à vontade, deixa a chave na portaria pra mim quando sair.
E se despediu com um beijo na testa. Depois de "amnéticos" 15 minutos, Caio se lembrou de tudo e nunca mais se esqueceu. Era a Carol. Aliás, se condenou eternamente por tê-la olhado com aquela cara confusa. "Ah, se eu tivesse me lembrado antes...". Misteriosamente, após ir embora, nunca mais achou de novo o endereço e não sabia como ou onde encontrá-la outra vez.
...
Raquel, a [agora ex] namorada, ainda pensa por que o Caio sumiu e não voltou mais depois daquela discussão, apesar de ter a resposta sobre o seu paradeiro sem saber. E ligou várias vezes, a noite inteira: "suachamadaestásendoencaminhadaparaacaixademensagenseestarásujeitaàcobrançaapósosinaltuuu."
- Por que eu fui mandá-lo pra puta que pariu?
É, Raquel... Ele foi. E conheceu alguém por lá.