Pages

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Pla

Viagens, passeios, decoração de ambientes, conhecer mais do mundo, mais da vida, novos bares em São Paulo, tentar gostar de São Paulo de alguma maneira, morar no Rio, comprar uma casa, decorar a casa do meu pai inteira, viajar com a minha mãe, viajar com o meu pai, dar artigos do Corinthians para o meu avô, fazer o vídeo do mochilão tão minuciosamente calculado, aprender a tocar violão, falar francês, italiano, ter um emprego, mas "atualizar" o semestre da faculdade fazendo dois em um em período integral, parar de trabalhar por isso, ouvir mais músicas, baixar mais músicas para o meu carro, comprar um carro novo, consertar a batida do meu carro, decorar de novo o meu quarto novo, trocar de quarto com o meu irmão, mudar de curso, terminar a faculdade, fazer Psicologia, descer de skate/carrinho de rolimã/papelão o monumento de ondas da 23 de maio, tomar sol, fazer as unhas, comprar roupas, saltos, abominar saltos e querer comprar tênis, sair mais, beber mais, não dirigir, dormir mais, passar mais tempo acordada, revelar fotos, trabalhar menos, ter mais dinheiro, trabalhar mais, ter mais paciência, ser mais questionadora, aprender matemática, odiar matemática, não faltar às aulas, passear com os cachorros, pedir desculpas a quem merece, mandar todo mundo para aquele lugar, fazer a blusa da Gap escrito Gab, dar mais presentes aos meus primos, assistir mais filmes, aumentar a ponderada, prestar vestibular pra limpar o histórico, carregar meu celular aos finais de semana, apagar este texto e escrever um novo, decidir não apagar só porque mencionei isso, começar a academia, ter preguiça de andar 500 metros pra fazer matrícula, mais preguiça ainda dos 500 metros pra voltar (na ida, é uma descida...), chegar do trabalho cansada, estudar um pouco e dispersar, sentar na cama e não fazer nada do que foi imaginado, ficar frustrada, escrever isso e ter vontade de começar tudo, mas não poder porque já é 1h16 da manhã e tenho que acordar cedo pra repetir todos esses pensamentos e, de novo... fazer planos pela metade. Ou pla, pros mais íntimos.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Eu também (me amo)

O bom de se amar é inventar o que quiser sem ninguém pra palpitar. Levantar a hora que quer e não ter que se desculpar, só levantar e nunca cair. É ter a cama de solteiro só pra si. Passear com o cachorro na praça e não levar o celular. Conversar com outra pessoa sem olhar pra direita e procurar seu par. É sair, viajar, é passear. É sentir-se no direito de reservar 4 horas do dia para se cuidar. É sentir-se feliz ao ter alguns minutos sozinha, enfrentar o trânsito sem se incomodar. Ligar o som e cantar, sem ninguém ao lado pra dizer como você desafina. Se arrumar pra si mesma, sem precisar ser muito fina. É dirigir sozinha, dirigir-se sozinha, pensar em quem quiser sem se preocupar com traição, sem cair em contradição, sem se trair, se atrair por quem quiser.
É ter amores platônicos e crônicos semanalmente, que renderiam uma boa crônica por dia se não fossem platônicos. É sorrir e sair andando. É sair e sorrir andando. É só rir. É só sair andando. É tirar a cerca do olhar, aprender enxergar e observar. Definir objetivos e alcançar, é deitar no travesseiro e dormir sem pensar. Acordar sozinha e se espreguiçar até as orelhas estarem relaxadas, comer cereal na hora do almoço,  e arroz e feijão no café-da-manhã. É regar plantinhas, é apreciar o silêncio, é criar, destruir, reinventar. Não ter limites nem palpites, eira nem beira, perder as estribeiras, extravasar.
É dar conselhos aos outros que nem chuchu na cerca. É seguir à risca o bordão "faça o que digo, mas não faça o que faço". É conquistar dentro de si uma balança de bom senso, renegar o consenso, é reservar um amor imenso. É economizar amor e investir em alto risco. É também não esperar, é não ter paciência com dilemas, é resolver tudo na base do "_|_, tem quem queira", é não desanimar. É não procurar e não querer achar. Tampouco procurar quem não queira achar. É não ter praxe, não ter sintaxe, não ter dor de amor. É não ter rancor. É não ter pressa nem preguiça pra nada. É se empolgar com uma sexta-feira à noite, mas esperar tudo de uma segunda de manhã. É ser dialética. É não se desequilibrar.
É não ser melancólica, é não ter cólica. É não sofrer de tpm por não ter quem queira matar. É não ter hora, não ter dia e não ter sono se precisar. É não se esgotar, não desistir, é não ter que provar aos outros o que precisa provar pra si. É provar um novo som, saborear um novo livro, ler um bom prato, escutar um velho drink, tatear um novo ar. É sinestesia invertida, é não ter ordem de significância. Tampouco ordem cronológica.
É não ter começo, não ter meio nem fim. É estar em si; tudo o que é preciso é não ter.
É ser, o resto é só.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Só eu e tu no mundo

Ela, brasileira, quase que não-nata, quase que não com as mesmas tradições de um brasileiro comum. Quando dorme, é uma pedra. Quando acorda é uma pena! Ninguém aguenta tanta energia, tanta coisa pra contar, tantas utopias, tantos voos em solo. Coca-cola e cigarros são coisas que podem sustentá-la por dias. Ela era azul. Ele, verde, de outro lugar a oito mil quilômetros aéreos daqui, bem longe, Portugal . Decidido, impaciente, orgulhoso, racional e planejador. Não dava voos no solo, pés firmes no chão. Acordava cedo e recusava-se a comer porcarias.
Por oposição ou disposição, de alguma forma se conheceram. Ele vinha pra São Paulo. Ela, de mudança e desocupada em um dos seus intervalos, enquanto comia alguma porcaria, viu seu pedido de ajuda na internet. Ajudou. Não estava fazendo nada, mesmo. Só comia um Big Tasty e havia 50 caixas prostradas na sala esperando serem desfeitas e um incansável cansaço. Por que não ajudá-lo?, pensou ela. E não duas vezes, assim foi. Ou algo quis que assim fosse. Apresentou-se, ofereceu ajuda, passou sites, pôs-se à disposição.
Conversaram algumas vezes, ele já sabia que ela havia terminado um protótipo de relacionamento que se arrastava por um ano havia pouco. Mais precisamente, algumas horas. Ela já sabia que ele estava só havia um ano. Passaram-se quase 20 dias quando ele, desesperado num domingo à noite em Madrid, chamou-a pedindo ajuda. Seus dois outros amigos vieram antes e não encontravam casa ou alguém que pudesse guiá-los. "Estarei às dez da manhã no metrô Jardim São Paulo, diga para me encontrarem lá, primeira saída à esquerda após a catraca." Passou-se um tempo até que entendessem o que era uma catraca. Ela mandou uma foto. Na segunda-feira, às 10h08, estava ela no metrô. Identificou-os pelas meias pretas, cumprimentou, apresentou-se. Um calor danado!
Ali começou tudo, levou-os primeiro à casa da vovó para um copo d'água e seguiram à zona leste. Visitaram algumas pensões que ofereciam aluguel que eram mesmo desumanas, até para uma paulistana acostumada à cidade. Encontraram um lugar "ruim com ele, pior sem ele". Onze elementos na mesma casa, não podia beber, não podia fumar, não podia levar gente de fora, nem lavar roupa ou fazer comida. Ensinou-os a expressão "é o que tem pra hoje". Ao fim do dia, levou-os para uma cerveja na sua casa, beberam, conversaram, falaram de costumes. Entretanto teve um insight e resolveu conversar com a vizinha e negociar o aluguel da casa ao lado. Deu certo, poderiam mudar-se ao fim daquela semana. No dia seguinte chegaria o terceiro elemento, aquele ao qual ela havia oferecido ajuda primeiro.
No dia seguinte, terça-feira, eles na república e ela nas aulas... impaciente, queria saber se ele havia chegado bem. Uma preocupação e um querer bem a quem ainda não se conhecia fora do habitual. Nem ela sabia por que se sentia daquele jeito. Às 22h15, recebeu uma mensagem em seu celular de um número infinito: "Olá! Já estou em São Paulo! Viemos jantar aos Espetinhos Coroné, sobes a "Tuiti" (do lado contrário de onde estiveste ontem com o Tiago e o Ricardo) e é na rua Cantagalo, 45. Vens cá? Beijinho". Sempre a se perder em São Paulo, saiu da faculdade imediatamente e foi. Chegou sem se perder e pôde conhecê-lo. Ele, inconformado com a cidade e as condições, só sabia dizer "foda-se" e repetia aquilo diversas vezes. Ela não entendia, mas preferia não perguntar por que ele dizia aquilo. Tomou uma cerveja, deixou-os em casa e foi pra casa. Ele também se preocupava: "Mande mensagem quando chegares".
Jantaram juntos naquela semana e de alguma forma, surgia um quê de interrogação na cabeça dela. E no coração, por conseguinte. Breves olhares, algumas empatias, coisas em comum que identificavam e calavam.
Finalmente mudaram-se para a casa ao lado. E com a mudança, muita coisa mudou além do material. Ela ajudou como pôde com tudo o que podia oferecer para tornar a estadia deles mais confortável. Beberam, jogaram cartas, saíram todos aos bares, conversavam por um tempo no Facebook quando voltavam, coisas que não perguntariam cara a cara. "Pensas em voltar para o seu ex?" ela, despretensiosa com a pergunta, respondeu que não. Ele, em réplica, disse que conhecia muitas miúdas e poucas eram como ela. E que não era para ser totó. Ela traduziu para PT-BR e interpretou. "Totó...? Cachorrinho, que vai e volta, obedece tudo. Miúda... miúda? Pirralha, pivete, menininha". Totó, em parte, estava certo, é tonta. Miúda não. Miúda é moça, menina, garota, guria, rapariga. Ela só não sabia disso e quase que desistiu de pensar nele por pensar errado.
Saíram mais uma vez, queria apresentar o fabuloso Corinthians a eles, jogo de abertura da Taça Libertadores da América. Foram à Liberdade, beberam copos na calçada, nem viram o jogo. Chegaram em casa, estacionaram. Por algum motivo, inventaram de lutar. Ele a derrubou na grama, ela mordeu seu braço forte, deixou marca... ele a fez comer grama. Entraram e logo partiram para o Facebook, eram raros os momentos em que podiam falar a sós. E de alguma maneira, sós, pois apesar da distância de 5 metros que separavam seus quartos, não estavam perto. Ela se desculpou pela mordida, ele disse que era só desculpa para dar beijinhos para sarar. E que, cá entre eles, um beijinho só não funcionaria. Ela respondeu "sim, dois" e desligou o computador. Ficou sem resposta, ele. E ela, sem entender por que o cara que a chamou de miúda dois dias antes disse aquilo.
Na semana seguinte foram à Augusta, num bar trash e voltaram pra casa sem novidades. De novo ao Facebook. Os dois não dormiam, tinham algo entalado no peito que precisava ser dito. Ambos deram a desculpa de que os galos cantando não deixavam dormir. Ele aproveitou a deixa e perguntou se ela sabia boas histórias pra adormecer. Ela só se perguntava "mas como assim? o que se passa?", enquanto sem pensar duas vezes, respondia que sim, tinha boas histórias. Ele pediu que contasse uma com final feliz pra ter sonhos felizes e a chamou até lá.
Hesitante e não, calçou as Havaianas e ao passo que dava suas passadas, passo a passo, no compasso dos seus passos lentos, batia seu coração descompassado. Mesmo que rápido, devagar. Sua barriga esfriava, dava arrepio. Chegou até lá e abriu a porta, enquanto ele descia as escadas com o edredom colorido dela nas costas... Sentou-se nas almofadinhas dela, no chão de concreto da sala e convidou-a para fazer companhia. Pediu uma história, ela disse algo desconexo sobre sua infância. Mas uma coisa foi certeira: cedo ou tarde ele se aproximaria devagarzinho pra lhe beijar. E foi assim... cedo, amanhecendo o dia, deram um beijo que durou alguns instantes e deitaram nas almofadinhas. Ali ficaram abraçados por alguns minutos. Logo ela voltou pra casa e ao Facebook e lá estava a mensagem em resposta à pergunta que ela ia fazer "Final feliz! Vou ter bons sonhos! :)".
Ninguém sabia do ocorrido. Bolaram um plano infalível: ela pulava a sacada e passava a noite lá. Voltava às 6h30 da manhã, antes que sua família ou algum dos meninos acordasse. Mantiveram segredo dos outros dois por um dia, que foi revelado após uma bebedeira e a surpresa deles ao ver que estavam de pijamas deitados, prontinhos para dormir. O plano da varanda continuou, pois ainda era segredo para a família dela. Vigorou por quatro dias, quando ela esqueceu-se do cachorrinho trancado no quarto. Estava com ele quando ouviu "Gabiii, abre a porta!". Imediatamente pulou a sacada, entrou pelo quarto do irmão e apareceu com a chave do quarto na mão. Levantou suspeitas, mas sua mãe tinha motivos maiores de preocupação e preferiu não entender o porquê da situação. Soltou o cachorro e, imediatista, não quis esperar um pouco até que todos fossem dormir de novo. Pulou para o quarto dele e logo o plano caiu por terra. A partir de então, avisou a sua mãe e passou a vê-lo como qualquer pessoa normal, saindo pela porta.
Foram à festa da faculdade e em meio a uma bebedeira resolveram abandonar o orgulho e revelaram que se gostavam. Passavam madrugadas adentro bebendo em casa, todos. Ele escrevia "eu amo você" e fotografava enquanto ela fechava a cara por motivos de ciúme ainda inexistente. Ela respondia "Eu também" com palitos de dente. Ele resolveu passar a sair sozinho com os amigos e o ciúme, naturalmente, surgiu. Ela resolveu sair com as amigas em plena segunda-feira para beber e descontrolar o que sentia e finalmente falar sobre seus ciúmes. Discutiram pela primeira vez e o segundo round foi na semana seguinte, quando ele a viu conversar com seu ex no Facebook. Motivo para não se falarem por um dia todo. Ela verborragiava palavras em PT-BR e ele não entendia nada, misturado ao choro e expressões típicas. Ele discutia em PT-PT e ela tentava traduzir. Aos poucos ela conquistou sua confiança enquanto ele fazia o contrário. E desfazia sempre que quisesse. Entre picos de confiança e desconfiança, surgiram viagens a churrascos, à praia, à pedreira, os suavinhos... Conheciam e se conheciam mais um pouco. Ela, como eles, é turista em sua própria cidade. Tudo novidade, odeia feijoada e assistia aos almoços deles às quartas-feiras, comendo um punhado de farofa. Caipirinha, ela não... ele sim. Diante de dicotomias construía-se uma grande cumplicidade, que independia da relação afetiva que tinham, tão ou mais valiosa quanto/que as noites que passavam juntos. Dividiam medos e fraquezas.
Ele passou a procurar empregos em São Paulo, foi a uma entrevista na qual foi aprovado mas não obteve respostas sobre a contratação nos meses que se sucederam. A vontade de ficarem perto um do outro cada vez mais aumentava. Infelizmente, mesmo que aprovado mas sem resposta, desistiu. Após irem à praia, passaram o comecinho de noite juntos, ela fazendo tapiocas e ele ouvindo música no Ipad enquanto lavava a louça. Ele, com as mãos ensaboadas, pediu para que abrisse o fecho. Ela abriu a torneira. Era o fecho do casaco, fazia um frio de lascar. Mesmo após 3 meses ela não entendiam algumas expressões. Em 8 de junho, ela levou-o ao aeroporto. Ele passou doze dias fora, entre estes o dia dos namorados e seu aniversário. Os doze dias foram uma prova, uma simulação que ditaria como se comportariam longe um do outro caso se mantivesse a relação. Ele disse que conversara com seus pais e que decidiu desistir de arranjar emprego em São Paulo, afinal, quando voltasse só teria mais um mês para fazê-lo, e quis tocar o projeto da família em Natal. Ela acolheu a notícia, mas preferiu não mostrar a angústia que lhe causava a sensação de já estarem afastados. E, mesmo que no mesmo país, ainda afastados. Ela desconversou, mudou de assunto, falou do cachorro. E chorava enquanto fingia serenidade.
Foi buscá-lo no aeroporto em 20 de junho. Teve a sensação de que conhecia outra pessoa, diferente daquela dos Espetinhos Coroné em 6 de março. Ficaram estranhos, distantes mentalmente por alguns dias. Talvez a notícia da proximidade de país, mas distância de estado tenha afetado o futuro daquilo tudo e por alguns momentos (diria dias), colocaram os pés no chão e as cartas na mesa a si mesmos. Mais algum tempo se passou e estavam juntos como nunca estiveram antes, sentindo de alguma forma o medo que tinham de que seus caminhos, novamente por disposição ou oposição, se afastassem. Sentiam isso um no outro e dedicavam-se a aproveitar aqueles 30 dias (que passaram como um instante) finais, cada minuto. Não se largaram, não brigaram muito. De aniversário ele deu a ela uma passagem a Natal, reservada para dia 5 de outubro. O cartão falhou, a passagem não foi emitida nem reemitida depois.
Durante os quatro últimos dias tudo ficou mais silencioso, angústias caladas com bebedeiras, noites em claro, declarações, planos, noites memoráveis. O banheirinho da despensa no quintal, que foi onde caiu em prantos durante a última festa da casa. Desde o começo fingia estar feliz pela festa de despedida, mas chorava em seu carro desde o dia em que vira o convite. Não aguentou, desabou. E foi ali, abraçada a ele, onde ouviu as palavras e promessas mais desajeitadas, desajustadas, desorganizadas e desconexas que alguém poderia ter dito a ela. E as mais lindas (carrega nos élhis), mais sinceras (ou mais sensatas). De toda forma, nunca tinha ouvido uma declaração tão a par do que sentia. Recíproca. Durante aquela noite, em meio a um frio congelante, após uma discussão sem motivo, embalados numa casinha de cobertor, eram só os dois no mundo. Pela primeira vez ele disse que a amava. Pela primeira vez ela não respondeu apenas "eu também" e pronunciou sem dificuldade alguma o seu primeiro "eu te amo", assim, completo. Porque era assim que se sentia.
E chegou, finalmente e infelizmente, a última noite. A mãe dela conversava com todos na cozinha, porém ela não suportou por muito tempo e sentou-se no sofá, contando até 50 para segurar o choro. Mas ele vinha de dentro mesmo, era incontrolável. As lagriminhas pulavam uma a uma, e ela passava a manga da blusa no rosto a fim de tentar conter o pranto. Comprimia os olhos pra ver se os canais lacrimais se fechavam. Era como enxugar um iceberg com um pano, impossível. Ele a viu chorando, subiu ao quarto e ela o seguiu. Na famosa varanda, (também cenário de muitos nasceres-do-sol), embalados, permaneceram em silêncio por alguns frágeis minutos. Chorando, ele pôs novamente os planos em pauta, pediu para que ela mantivesse a calma, assegurou-a de que a distância nem seria tão longa, de que aquilo tudo continuaria. Dormiram juntos, abraçados, abstiveram-se de tentar qualquer coisa pois correria o risco de desistirem pelo choro. Enfim, adormeceram.
O dia amanheceu e logo deu-se início à desmontagem dos móveis, devoluções, mudanças de novo. Ela foi para casa e manteve-se imóvel, quase que em estado de choque enquanto via cada móvel e pecinha voltar para seu lugar de origem. Não se conteve nem para tirar uma última foto em frente à saudosa casa 30, e saiu chorando.
Enquanto ele dirigia até o aeroporto de Viracopos, ela tentava manter-se equilibrada, mas as músicas não deixavam. Vez ou outra desabava e se recompunha. Chegando lá, no portão de desembarque ela se despediu dos outros três, não com menos pesar. Mas ele... era complicado. Não conseguiam se olhar. E quando veio na direção dela e se olharam, ela não conseguia chorar baixinho. Doía mesmo. Aquele abraço cheio de medo de ser o último doeu por dentro e dava uma vontade de não largar, de ficar naquele embalo doído parada ali, levando multa da polícia pra sempre por permanecer em local proibido. Os planos foram refeitos, relembrados. A vontade dela de acabar a faculdade para estar com ele era tamanha, que após a despedida fez uma prova da faculdade aos prantos e tirou 9. Poderia ser uma prova de medicina, e ela, mesmo leiga, tiraria 9 só para acabar logo com aquilo.
Por disposição ou oposição do destino, aquela prova não era a última, mas o abraço, sim. Após três semanas de distância, ele com os pés no chão. E em seu país, resolveu terminar. Ela, com a cabeça nas nuvens não entendia o porquê. Por disposição ou oposição, ele é racional. Eu, sentimental.
Queria mesmo que fôssemos só eu e tu no mundo como naquela noite.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Pra desfazer e refazer

Dizem que se você contar os desejos que fez, eles não se realizam. Em 23 de dezembro de 2012, escrevi "O tapa do médico", com as resoluções do meu final de ano e meus desejos para o ano seguinte. E o que pedi foi para "intensar".
Cansada das mesmas pessoas e suas manias e ladainhas, pedi por um pouco mais de aventura e desejei relações breves e intensas enquanto pulava as 7 ondas no primeiro minuto de vida deste ano, em Juqueí. Queria gente que chega e vai embora e consegui, concretizei o "vou ali e já volto nunca mais, não espere por mim" que escrevi em dezembro. A parte que me esqueci é que as relações podem ser intensas, mas se forem intensas nunca serão breves. E troca-se a antiga mágoa pela saudade. É uma dor incômoda que quando aliada à esperança e ao objetivo, pode ser curada com facilidade.
Saudade é a sensação de que tudo deu tão certo que você seria capaz de repetir tudo de um jeito melhor, mesmo sabendo que bastaria apenas repetir da mesma forma quantas vezes desse na telha, como ir e voltar um filme. Seria perfeito se ao invés de memorizarmos, revivêssemos. E é com essa intenção que matamos as saudades.
Meu desejo de Ano Novo se concretizou quando eu mais queria que se desfizesse e foi tudo tão intenso que me esqueci de pedir pra tirar o "breve" do meu pedido. Mas se agora estou contando, é por querer que aquela noite especial não tenha sido uma despedida, que aquele cigarro tenha sido dos primeiros e que aquele copo não tenha sido a abaladiça. 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Alguém na vida

Alguém na Vida foi filho de Aquele na Vida e Uma na Vida. Nasceu em família pobre e viu todas as dificuldades, trabalhou na lavoura, no interior do Mato Grosso do Sul e se alfabetizou sozinho. Autodidata, passou a frequentar a escola do vilarejo onde morava, andava 12km por dia para estudar. Aprendeu Matemática, História, Geografia e nem a professora era páreo para ele, já não tinha mais conteúdo para ensinar, de tão interessado que era o menino. A família convencida de que tinha um filho fora do comum, resolveu enviá-lo à casa de um primo de terceiro-grau do pai de Alguém, que vivia em São Paulo para que ele tivesse mais acesso aos estudos.
Alguém foi. Ao mesmo tempo, a família começou a prosperar com a venda de soja no interior e puderam pagar uma escola particular para Alguém. Alguém prosperou, passou no vestibular de universidade pública, Engenharia Agrônoma; aprendeu inglês, espanhol, italiano, francês, russo, japonês e chinês. Viajou o mundo com bolsa-pesquisa, começou a trabalhar em uma multinacional, conseguiu contatos para a venda de soja da fazenda dos pais. Alguém ajudou a si e ajudou sua família.
Sem contar que curtiu a faculdade, conheceu uma infinidade de pessoas, inclusive a mulher, Ela, com quem casou e teve dois filhos: o primogênito era Eu e o caçula era Você. Milionário, Alguém conseguiu dar uma vida confortável a Ela, Eu e Você. Desfrutavam de viagens, passeios, melhores escolas, melhor tudo.
Infeliz tentativa ocorreu quando seu irmão mais velho, o Deputado Ninguém, tomado pela inveja e pela maldade, resolveu dar um golpe em Alguém para tirar todo seu dinheiro. Era só dinheiro, Ninguém perdeu. E ninguém perdeu. Alguém teve a capacidade de se reerguer e reconstruir seu patrimônio. Ninguém não foi parar atrás das grades e ninguém foi parar atrás das grades, diante da impunidade deste país. Mas Ninguém na Vida morreu cedo. E Alguém continuou vivo na memória de todo o mundo, como um herói: "Você precisa ser Alguém na Vida! Vá estudar, vá trabalhar!". To indo!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Paranomásias e paranoias de domingo


Entre anagramas e anaquilos, paranomásias e paranoias, cacofonias e cacofonices, eufemismos e egocentrismos, cá estou eu, um caco. Anaquilos, paranoias e cafonices e egocentrismo para noias e para todos. Sem falar nas metáforas... E agora eu começo do começo a verborragiar os neologismos e as coisas que eu penso pra tentar traduzir pro português o que se passa nesse imenso mundo que é só meu. Nem tudo está no dicionário. Se estivesse, preferiria ter me limitado ao bê-a-bá.

Às vezes eu acho que tremer de frio à toa  - como estou agora - é uma tática que o corpo usa pra te dar um chacoalhão e você parar de temer e tremer e fazer vista grossa. Às vezes eu acho que deveria ir ao oftalmologista perguntar qual é a cura pra vista grossa, se preciso de óculos ou ósculos, se há colírio, se é delírio, se há cura, se é loucura. Já dizia o Orkut na frase do dia, há mil anos: "O pior cego é aquele que não quer ver." O pior cego não é só aquele que não quer ver o que o outro faz de errado, como também aquele que não enxerga ninguém além do outro; e o outro é pior ainda porque não enxerga nada além de si mesmo.

Eu acho que tenho um relacionamento sério com o amanhã, vivo dando satisfações pra ele sem saber o que vai vir da vida. Por vezes viro a noite esperando que ele me dê uma resposta. Mas quando ele está pronto pra me dar o que preciso, eu estou dormindo porque cansei demais de esperar por ele. Não que eu queira estar dormindo, mas estou, porque passei a noite em claro tentando me esclarecer sobre meu pesar de estar pesada de coisas que não valem uma pena, se eu pesar tudo numa balança. Aí clareamos e amanhecemos juntos, eu e o amanhã. Entre "sou teu" e "solteiro" há uma pequena distância fonética.  No final das contas e depois de tanto comprometimento, talvez o amanhã me dê uma aliança. E quando o amanhã for meu, estiver na minha mão e no meu dedo, talvez perca o medo.

Compensa pensar?  Pensa aí, até que compensa. Pensar é melhor do que ser pressionado pela pressa. E depois é você quem faz a compressa pra dor de cabeça de ter agido com pressa. Não se apegue aos pormenores, por maior que seja sua vontade de saber o que virá. É hora de despertar, parar de só espiar e esperar, de desesperar por querer se surpreender com o que não te surpreenderá. Levar de qualquer maneira porque só assim você vai se surpreender à sua maneira e ficar leve. Só leve, deixe sua pena  de lado e vire uma pena, veja como a vida fica mais leve de levar assim... mas leve assim, de levinho, sem levar a sério. Devagarinho, devagar, de vagar... inho! Leve inho, não ão! Abrevie preocupação. Sem pressa, sem pressão. E quando for a sério, é só levar pra valer. Com 80kg mentais a menos, garanto que na pior das hipóteses vai ser uma peninha, não um penar.

Vamos começar a por pra fora o que tem aqui dentro e falar logo sem ser destilar o tempo inteiro as as intenções. E não precisar tomar meia dúzia de destilados pra ficar sem filtro algum e distorcer as intenções. É pra intensar. Não tem que fazer da sua cabeça uma página em branco em que você escreve e apaga, essa passividade tem de se limitar à escrita. Aliás, na escrita é por capricho que se apaga tudo, não por medo. Se é pra temer a vida, alugue um quarto no hospital e seja feliz.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Inventura

Começo, recomeço, me estresso, regresso, me confesso
Fuço e refuço, busco e rebusco, me busco
Ensaio e retraio; se saio, me traio
Digo e redigo, brigo e me abrigo, redijo
Penso e repenso: um lenço, é tenso
Leio, releio, relevo,
Verso e reverso,
Volto e revolto
Risco, rabisco... desisto.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Senhora manhã

Senhora manhã, senhora amanhã, sem hora amanhã, sem hora manhã. Eu estou sem hora amanhã, daqui a pouco surge a senhora manhã e eu vou pensar "Senhora! Amanhã é segunda-feira?". É um conflito interno muito grande, sabe? Imaginem o Tico e o Teco lutando jiu-jitsu e terão uma visão literal do meu cérebro agora.
Senhora manhã, que talvez abra um lindo dia amanhã e eu tenha ficado muito tempo nesse computador pra vê-lo nascendo. Senhora amanhã que vai ditar o tempo de tudo. Senhora! Amanhã é domingo.
Senhora amanhã, por favor, nos faça pensar no hoje. Porque eu não aguento mais viver em função do amanhã.
Porque quando eu penso em algo, tenho sempre que pensar "E amanhã?" e nunca posso pensar "E hoje?".
"E hoje" é uma expressão muito sexta-feira e sábado. Mas não funciona nos outros dias da semana, pros outros.
Quando te ligam durante a semana:
- E amanhã, o que você vai fazer?
Quando você diz que quer se demitir:
-E amanhã, o que você vai fazer?
O amanhã tem mais é que ir pro raio que o parta! (Ouvi dizer na previsão que chove amanhã). O amanhã tem que ser amanhã. Pra que quando for amanhã, seja hoje. E o hoje a gente pode viver.
Por isso, Senhora Amanhã, não comprometa o futuro alheio.  E senhora manha, sem hora manha. Amanhã eu vou amanhar e amanhecer! Porque eu estou sem hora amanhã, que é domingo. E domingo só existe uma vez por semana.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O leque e o canivete

Dizer sim é como abrir um leque e dizer não é abrir um canivete.
Quanto tempo não desperdiçamos abanando os outros com esse leque? E os outros só nos cortando com esse canivete. Só depois que já estamos esquartejados, paramos pra pensar em todo o leque que abrimos e em toda a ingratidão de quem só cortou nossas investidas. Uma hora a mão cansa, a paciência esgota e precisamos refrescar a mente.
Mas ainda bem, temos tudo à mão. O mesmo leque que usamos pra abanar o ego de quem não merece, usamos pra nos abanar. Nos permitimos tudo. E o que acontece com quem só tem o canivete? Das duas, uma: ou continua fazendo maldades aos outros, ou quando os outros também se cansarem, esse canivete só poderá fazer mal ao seu próprio ego. Ainda bem que eu tenho meu leque.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Os camundongos do trilho

Seis da tarde no relógio da Estação da Luz. Todo mundo fala da história dela, da arquitetura, da importância do local, do centro de São Paulo que hoje abriga a crackolândia.
Mas não estou interessada nisso agora, já passei dois meses observando essa história (quase que) de segunda a sexta e algo me despertou mais a atenção do que o "turismo" em si.
Há duas semanas, enquanto falava ao telefone, observei uns pontinhos se movendo no trilho, rapidinho, pra lá e pra cá. Não consegui assimilar o que era, já que só consigo utilizar um dos meus sentidos por vez (ou eu escuto, ou enxergo, assim como não consigo andar e mascar chiclete simultaneamente). O trem chegou, embarquei, "Senhores passageiros, boa noite. Este trem tem como destino a estação Rio Grande da Serra. O tempo estimado de viagem é de 52 minutos. A CPTM deseja a todos uma boa viagem." e lá fui eu em direção à estação seguinte, intrigada com o que defini por OTNI's (objetos terrestres não identificados). Como gosto de pequenos mistérios, não desisti.
No dia seguinte... mentira, no dia seguinte faltei à aula. Ok, dois dias depois, olhei fixamente pros trilhos. Inicialmente, achei que fossem folhas secas, mas era impossível, porque não tem árvore ali. Logo, vi rabinhos e coisinhas vivas, camundongos pais, camundongos filhos, o pajé camundongo e toda uma aldeia roedora se instalava ali. E são camuflados, da cor das pedras marrom-acinzentadas. Lembrei da seleção natural, claro, eles eram como as mariposas ebony que ficaram cinzas, mas antes eram brancas. Com a revolução industrial na Inglaterra, tiveram que mudar de cor se quisessem sobreviver. Só elas, branquinhas dando sopa em meio à fuligem? Assim como os ratos ebony da estação da Luz. Vivem ali há inúmeras gerações, já nascem pequenos e ficaram da cor das pedras, quase invisíveis aos olhos desatentos. Mas nada me escapa, especialmente quando procuro distração imediata... e passei todos os dias a observar a rotina dos camundongos aventureiros.
Diariamente, torço pra que alguma velhinha na fila do trem derrube uma pipoca ou um biscoito de polvilho no chão da plataforma. O fiscal vem pôr a fita do desembarque, chuta a pipoca e semeia a discórdia na aldeia roedora. Pajé rato, cacique rato, filhote rato, pai, mãe, TODOS lutando por uma pipoca, sem usuários preferenciais. O mais ágil e forte leva o trunfo pra casa. Chega o trem, somem os ratos, pessoas se empurram, se esmagam, se aniquilam, se cotovelam (existe essa palavra?) em prol de um assento. E o mais ágil e forte leva o assento do vagão pra casa?
...Depois ousam dizer que o homem é racional.

Rascunho genuíno / Eco do meu eu

Esse texto vai ser pra sempre um rascunho. Deveria se chamar rascunho, mas como o título é a única coisa que tenho, talvez seja melhor preservar. Não, esse vai ser meu rascunho ao vivo. Acabei de colocar rascunho entre parênteses antes do título. Sem correções, hoje vai doer escrever e o capricho vai ficar puto.
Não vou voltar atrás pra corrigir nada, eu prometo. Esse vai ser genuíno. Aliás, poderia até estar no nome também, vou colocar. Pronto, acabei tirando o rascunho dos parênteses pra ficar mais legível. Não é essa a palavra... Sabe quando alguma coisa que dizemos é sonora? Tenho isso com a leitura também. Não gosto de nenhum texto em que o parágrafo termine com uma palavra só na última linha. É motivo pra eu escrever mais meia dúzia de palavras só pra não ficar feio quando publico. Ridículo, mas é verdade. E nem sempre essas seis palavras são produtivas, mas... achei a palavra que procurava! Tornam o texto menos anti-estético. 
Esse vai ser super anti-estético, nada a ver. É um tutorial pra minha cabeça funcionar mais vezes hahaha, como eu penso idiotice... e como vou acordar amanhã cedo? Paciência, imprevistos acontecem. Vou ali no fogão acender um cigarro e ...achei o isqueiro debaixo da minha perna. Ufa, ia camelar uns 5 metros nessa mansão até achar o fogão e provavelmente queimar minha franja. Eu queria coca. Achei um copo sem gás que pus na minha cadeira quando comecei a mexer aqui e consertar os títulos. Ainda bem que o Universo conspira a meu favor sutilmente e pôs esse copo e esse isqueiro bem aqui pra quando eu precisasse. E imagina, não é porque eu sou bagunceira e deixo as coisas pelo caminho, é coisa do destino hahaha... Prefiro justificar assim, é mais... Como é aquela palavra? Chique, não... é mais... Cadê aquela coisa pra eu ampliar meu vocabulário? Ah, isso o Universo não me dá de presente, eu tenho que procurar o Jovem. Voltando à minha justificativa da bagunça, é mais... fechei o olho, dei uma pescada. Acho que to tendo uma overdose de palavras sem sentido ricocheteando na minha cabeça. Mais místico e menos maloqueiro, eram essas as palavras. Pronto! Agora preciso ir, porque a bateria está acabando e esse é um sinal claro do destino pra eu ir dormir e acordar amanhã. E esse texto não pode continuar sendo um mero rascunho, ele tem que ser genuíno e um eco do meu eu. Meu eu, eco... entendeu? Eu, eu. Enfim, 7% restantes, esse computador da Xuxa sempre me engana. Fui. Enquanto isso, vou pensar na vida e em "como é aquela palavra mesmo?" uma hora eu canso de pensar e durmo. Porque o destino quis, senão eu ia ficar acordada e não iria trabalhar. Não seria má ideia se o destino conspirasse pra bateria do meu celular acabar e ele não tocar logo cedo.