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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O tapa do médico

Eu não vim aqui pro mundo a passeio, aposto que ninguém veio. Todo mundo nasceu dando a bunda a tapa nos primeiros minutos de vida. Mas o ser humano tem uma necessidade vital de simplificar as coisas, e é o que acaba complicando. Por que não intensar? Intensar mesmo, porque intensificar é termo de rótulo de shampoo pra cabelo crespo. Sem mais, vou começar a verborragia.
Ninguém conjuga o verbo intensar, pra que ousar? Está fora dos limites e necessidades humanas tornar as coisas intensas. Até complicam pra falar "tornar as coisas intensas", e é mais simples do que parece. A gente sofre, chora, reclama, remói depois? Não vou negar. Mas e o que a gente vive, não é mais importante? C'est la vie, é melhor escolher sofrer e ter vivido do que ser pego de surpresa e ter se poupado, né não?
Há instantes que pedem e imploram a graça da efemeridade e da intensidade, ou não seriam instantes, seriam momentos. E momentos podem ser bons ou ruins. Instantes são intensos e memoráveis, sempre bons. Quase fazem um anagrama entre si. Uma amizade de viagem, um amor de praia, um trabalho bom, o cara bonito do trânsito, a mulher do metrô... Alguém que vem e vai. Mas vai mesmo pra não voltar mais e pra gente sofrer a dor de uma perda que não foi tecnicamente uma perda, mas só um "vou ali e já volto nunca mais, não me espere". E sem ressentimentos, só memória. Isso sim é intensar.
Como já diriam Toquinho e Vinícius, "a vida só se dá pra quem se deu: pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.". Que todo mundo sofre de verdade ou não, é fato. Mas nem todos vivem ou se permitem viver. E essa vida não tem paciência com choro desprevenido. É bom chorar pelo previsto e prever intensando pra não chorar pelo imprevisto. Por isso, intense. É a melhor maneira de se precaver pro que vem e esquecer o que foi.
É curto, é intenso. Eu curto, eu intenso... Chega de viagem, o recado é o seguinte:
Levante esta bunda daí, faça jus ao médico que bateu nela há alguns bons anos e mostre a ele que agora você foi mais além, e dá a cara a tapa. Mas pelo menos sabe quem vai dar o tapa e por que o levou. Porque você intensou e quem não intensa, não sofre de verdade. E quem não sofre de verdade, não sabe o que é viver. E quem não vive, cedo ou tarde... morre. E esse tapa que a vida dá, ninguém prevê.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Eu, antagonista da minha vida (?)

A Gabriela abandonou sua vida, e nem precisou se matar pra isso. Simplesmente ignorou os detalhes e deixou o piloto automático assumir seu controle. Trabalhou, estudou, tomou banho na hora certa, dormiu às 21h em sextas, sábados, domingos, feriados e vésperas. Saiu duas vezes: na primeira, colocou o cérebro no automático e conversou assuntos aleatórios com diversas pessoas. Na segunda, foi à casa de um amigo com seus amigos de infância e dormiu. Ficou sem comer, passou noites em claro, foi embora do trabalho mais cedo, faltou às aulas...
Então decidiu ficar quieta até que a poeira baixasse e ela mesma assumisse a direção da sua vida, mas o piloto automático fez usucapião do controle e não queria devolvê-lo. 
Foi aí que percebi, estava vivendo mais só do que qualquer ser que esteja só. Estava vivendo sem mim. É ruim deixar alguém pra trás, se desvencilhar de um hábito, mas eu tinha que ser meu hábito, minha mania, e não os outros. Não sei como não senti dor pra esquecer de mim. Mas enfim, eu voltei. Um dia resolvi ligar a TV e ver filmes diferentes, nos outros passei a conhecer músicas novas, pessoas novas, criar manias novas. Fico extremamente feliz por conhecer alguém tão diferente de mim quanto eu mesma. Posso ficar 24 horas comigo, que agora não me canso.
É péssimo quando a gente se sente só mais um, e isso é muito relativo: pra quem vê de fora, somos só mais uns mesmo. Procurei olhar de dentro e me surpreendi com o que encontrei. Tanta coisa que quis e fiz, tantas outras que pretendo fazer e só dependo de mim. É terrível quando confundimos delicadeza com fragilidade, ser sensível com ser emotivo.  A gente pode cruzar dedos pra dar sorte ou pra mentir, pode colar em prova, fazer conversão proibida, pode atrasar 5 minutos no trabalho, pode se entupir de comida, pode se perder com GPS, pode ficar sem dinheiro pra gasolina, pedir informação na rua logo pra um estrangeiro, deixar o celular com o frentista do posto pra fazer fiado. Tudo isso pode, basta que cada um seja cada um. Sem culpa, sem privação, sem auto-piedade. Algumas situações pedem de desespero, mas a racionalidade é essencial pra não esquecermos de que tem vida antes da morte.
A ventura dá as cartas. A Ventura joga. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Foge ou sai de cima

Já era. Quatro da manhã. Já eram quatro da manhã. E aquele silêncio (in)oportuno calava a boca de quem desejava uma verborragia pra botar tudo aquilo pra fora, mas por falta de tempo - ou de paciência - permanecia imóvel. E quanto mais aquela quietude gritava, menos dor se sentia. Pelo menos era assim a curto prazo. Por falta de tempo ou de paciência deixaram de dar atenção um ao outro. E ali foi posto algo como "...?". Aquela situação perdurava. Quantos dias duraria? Quanto menos, melhor. Era uma espécie de coceira de sentimentos, incomodava enquanto estivesse ali... E ai se não cutucasse, era incontrolável. Era uma delícia cutucar aquela ferida e coçar, coçar, fechar os olhos bem apertados e só coçar. Algo como quebrar o silêncio, chutar o pau da barraca, falar sem parar. Mas assim como a pele se fere após o alívio de uma coceira, seu ouvido se irritou. E se feriu. Depois de já não escutar direito, só restava pensar: que adianta vomitar palavras se depois quem tem que limpar a sujeira é você?
Passaram a elaborar frases pentassilábicas seguidas de ponto final, outra frase curta, outro ponto e reticências... Tudo a fim de esconder uma escandalosa interrogação: Vai ou racha?! As reticências iam, o ponto final rachava. E assim foi, até que foi... Até que assim vai. Até que assim vamos... E rachar? Só se for despesa.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Nós

Que nos atamos
Que nós atamos
Que nós desatamos
Que nos desatamos
Reatamos
Desfazemos nós
Pra refazermos nós
Refazemos nós
Desfazemos nós
Desatamos

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Sobre CD's e palavras

Metatexto: é como uma carta com o mesmo remetente e destinatário. Não é exatamente o que farei aqui, mas era minha intenção inicial. Acho que se encaixa, pois vou falar de palavras, e não de mim. A fragilidade e volatilidade das palavras é fator crucial para decidir o rumo e o ritmo da história, da conversa, do texto e até do pensamento. Como elas se comportam quando inseridas junto a outras palavras, como a delicadeza delas pode construir um texto primoroso. Ou como a falta de domínio delas pode arruinar seu TCC e seus relacionamentos.
Quem tem que saber a melhor maneira de usá-las é você mesmo. Mas elas têm que estar ao seu dispor, você precisa sabê-las e entendê-las para, enfim, colocá-las em seus devidos lugares.
É como organizar uma prateleira com livros ou CD's por temas. Você só colocará Rock na prateleira do Rock se souber o que é Rock, certo? Senão, pra que organizar? 
Com as palavras, é assim. Sabendo como e quando usá-las e quais delas usá-las, chega-se a qualquer lugar. Existem as palavras adequadas para os mais variados assuntos, e não é só o bom senso que dita isso. O que dita mesmo é o VOCABULÁRIO. 
1. Para pacíficos: "Olha, eu entendo o que você disse, mas não concordo com algumas coisas."
2. Para agressivos: "Não entendo, não quero entender e foda-se você e o seu egoísmo."
3. Para mentirosos: "Veja bem, acho que você não entendeu direito..."
4. Para dramáticos: "É você quem não quer entender a minha fragilidade."
5. Para passionais: "Mas eu te amo tanto, nem comi minha salada pensando em você. Não entendo o porquê disso."
6. Para as crianças: "Não quero, não quero, não quero. Não estou escutando, lalalalala..."

Entendeu? Reggae na prateleira do Reggae, Rock na do Rock, Pagode na do Pagode, MPB na de MPB e Pop na do Pop, e Xuxa e Restart na prateleira de Infantis & Cirandas, respectivamente. É claro que tem a prateleira dos variados, aquela em que têm CD's de trilha de novela, que são comparadas a jogar conversa fora, tem a seleção de Love Songs, que são análogas ao nhenhenhém dos amorzis. Mas tudo tem que estar em seu devido lugar.
Por exemplo, sabe aquela pessoa que não tem pudor pra falar? Essa é uma pessoa que põe um CD de Rock na prateleira do Samba, não sabe escolher as palavras adequadas à situação. 

Se você organiza sua prateleira de CD's ou sua pasta de músicas de acordo com o gênero, por que não fazer o mesmo com as palavras? Organização e vocabulário são fundamentais para que você não dance conforme a música alheia. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Cirurgia mental: como ser mulher?

Mais uma noite em claro, mais milhões de coisas pra pensar e pra me preocupar.
Seria ridículo procurar no Google "Como crescer", "Como criar maturidade", "Como se tornar mulher". Não haveria resposta. E se existisse, mais teoria não me agregaria nada. Exceto em relação a se tornar mulher, por denotar muitos outros sentidos que envolvem desde cirurgias plásticas até o ponto onde quero chegar, que é a cirurgia mental.
Mulher eu já sou geneticamente e por opção sexual, mas a questão não é essa, óbvio. A cirurgia mental diz respeito a muitas outras coisas. De repente, inquieta, levanto a cabeça do travesseiro atrás de uma resposta. Não sei discutir com propriedade sobre sociologia, política, história, matemática, música, medos, sonhos conflitos do Khadafi. Nada. Achei que fazer uma faculdade pública e namorar bastassem. Não bastam, ninguém vive de amor e teoria. Mero acaso, meras decorebas... Fui mais uma criada do sistema pra responder o que eles queriam na FUVEST. E na verdade, queria ser completa, queria usar minha cabeça pra coisas boas. No fundo, sempre soube que deveria perseguir um ideal, que só isso me deixaria menos ansiosa e inquieta.
Mais do que isso, cheguei à conclusão de que as pessoas não precisam de pessoas que as completem, e sim de atividades, preferências, hobbies. Só estando completas ou procurando isso, é que encontrarão alguém pra dividir essa bagagem. Não tenho bagagem, só tenho bobagem. Há quatro anos, reparo nas pessoas que conheço e no caminho ótimo que suas vidas estão tomando. Ao invés de tomar como exemplo e perseguir meu objetivo, qualquer que seja ele, permaneci na estaca zero. De nada adiantou largar tudo ou simplesmente não progredir por conta de pessoas que me impediam. Agora eu me vejo diante de um impasse: ou cresço, ou desapareço.
Ainda dá tempo de crescer, de saber de tudo, e não apenas preço, praça, produto, promoção, consumidor e o que fazer com ele e com seus pensamentos malucos. Cursar Marketing deveria ser um complemento na minha vida, aliado a tudo o que eu já sei. Mas não sei de nada, não sei como me imagino em dez anos profissionalmente, não sei que objetivo perseguir, não sei que assuntos me apetecem conversar, não sei como vim parar aqui. Aliás, como vim parar aqui, eu sei: falha no anticoncepcional, mas isso não vem ao caso. Tanta, tanta, tanta teoria sempre, que procuro uma explicação sobre o que é isso tudo.
Mais uma crise existencial, dessa vez com o propósito de ser resolvida. Agora vai, sem vaselina! HAHAHA

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Probabilidade condicional

Hoje vou falar um pouco sobre probabilidade condicional! Os amantes da estatística que me perdoem (ou que fiquem radiantes), pois não vou explicar como funciona esse método maluco que a matemática inventou pra dizer que uma coisa não depende da outra. Só quero deixar registrado o quanto odeio esse tipo de matemática.
Um matemático que se preze tem que ser ótimo em português, claro, não precisa só saber as regrinhas básicas de bê-a-bá. Mas os estudantes de ciências humanas não precisam ser conhecedores profundos da matemática para que sejam profissionais completos. Não uso matemática avançada para pedir licença no metrô, nem pra pedir um pingado e um pão na chapa (e eu já sei que a conta dará dois reais). Eu sou a consumidora final, ela já vem toda mastigadinha pra mim.
E eu não quero saber de onde vem, quero saber pra que serve tudo isso! Poxa, sejamos objetivos, não se trata de ciências EXATAS?

quarta-feira, 4 de maio de 2011

...E crescer dói

Numa noite fria de três de julho de 1992 nasceu um bebê prematuro, de parto cesáreo, feio, bochechudo e reclamão. Era eu, Gabriela.
Minha mãe quase morreu porque as anestesias não pegaram, eu quase morri e tive que ser arrancada com um fórceps de dentro da barriga dela, embora este artifício só seja necessário em partos normais. Enfim, após alguns dias, nossa dor se foi.
[...] Fiz curso pré-vestibulinho, abandonei. Passei nos vestibulinhos, estudei no Liceu, meus pais se divorciaram, fui expulsa do Liceu. Fui para a FECAP, me adaptei bem, minha mãe vendeu a sociedade na empresa e tivemos uma má fase familiar naquele ano.
Terminei o curso técnico, apresentei o TCC aos trancos e barrancos, tirei 8, passei de ano direto, perdi a inscrição da FUVEST e não passei na PUC. Comecei o cursinho no Etapa. Abandonei, mas prestei vestibular. Fui aprovada na PUC e na USP. Escolhi a USP e faço Marketing. Ganhei meu carro e não sei dirigir fora do perímetro da região, pego ônibus, metrô, trem e trem para ir à faculdade por conta disso. No setor amoroso estou plenamente satisfeita, na faculdade estou bem, na vida social estou ótima. Procuro emprego e não acho. Acho até que os empregos estão na mesma dimensão que o outro pé da meia, tampas de canetas bic, isqueiros e guarda-chuvas. Desempregada de verdade agora, sem mamãe. Essa é minha biografia sucinta até o momento.
Ninguém se lembra da dor que sentiu ao nascer, mas é fato que não é indolor. Cortar o cordão umbilical, depois respirar com os próprios pulmões e realizar suas funções vitais sozinho não é fácil. A partir do momento em que as funções vitais se tornam fichinha, vêm as necessidades: andar, falar, escrever, estudar e até mesmo dirigir. E depois das necessidades, vêm os desejos... o que não vem é o dinheiro. Sinto como se alguém estivesse me tirando da barriga da minha mãe de novo, cortando o cordão umbilical psicológico, me pondo num moisés de palha e me arremesando em direção ao rio Tietê, passando por muita merda até encontrar alguém que me adote para que eu finalmente cresça.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Eu somos

Essa página em branco não me apetece. Depois de escrever aproximadamente 10 linhas, vejo a tela cheia de letras, apago tudo e escolho outro tema. Hoje vou deixá-lo fresquinho e sem retoques. Meu perfeccionismo vai ficar de cara com isso e hoje ele está bravo comigo, por isso vou desafiá-lo.
Temos uma relação de amor e ódio e já atribuí vários apelidos carinhosos a ele: detalhismo, metodismo... mas capricho é o que eu mais gosto. De vez em quando ele se decepciona comigo: "Gabriela, que vergonha! Você vai mesmo sair e deixar essas roupas jogadas no seu quarto?". Às vezes ele se orgulha de mim, "Lavou a louça todinha! Agora já pro banho, porque ambos sabemos o asco que lhe proporciona a sensação de micróbios e restos de alimento nas suas mãos." Só de lembrarmos, temos arrepio.
Eu e meu perfeccionismo formamos um casal perfeito. Ele é sincero demais, sempre diz quando meu cabelo está feio ou minha roupa não está bonita, quando o texto está péssimo e deve ser salvo nos rascunhos para aperfeiçoar depois, e por vezes me faz arrancar folhas do caderno e escrever de novo quando não capricho ao escrever a data. Quando saímos pra comer, ele não me deixa comer pão de forma com manteiga porque tem aflição, e se comer pão de forma TEM que ter um pingo de mostarda em cada canto. Ele odeia quando eu fumo e perco o charminho do perfume por isso, não me deixa dormir sem lavar as mãos e escovar os dentes, tampouco dormir com um pijama que não combine as cores. E ai de mim se não dormir de pijama, o capricho dorme no sofá e só acorda de bem comigo se eu fizer aquele café da manhã pra gente, sem esquecer dos pingos de mostarda nos cantos. Mas quando ele se orgulha, é uma felicidade que não cabe em mim. Por isso compartilho com ele.
É um defeito e uma qualidade, por isso a relação de amor e ódio. Ele não apenas me quer, como todos os outros, que precisam de mim pra que os outros saibam quem eu sou. Me quer BEM... pra que eu sempre saiba quem eu sou/somos. Somamos.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Coisas que meus filhos não saberão

Quatro horas e vinte e sete minutos (da manhã), ela se revirou quase que do avesso no colchão e mesmo assim não dormia. Tirou as meias, a blusa de frio... mas as preocupações e coisas intangíveis permaneceram naquele cubículo junto com ela. Foi refrescar as ideias: pão, manteiga, espátula, coca-cola e copo. Passou manteiga no pão, botou no microondas, e enquanto aguardava os rotineiros 30 segundos do aquecimento, colocou coca-cola no copo e pegou o pote de sal pra dar o toque especial ao lanche da madrugada. "Piii piii", apitou. Mordeu o pão e parou de se preocupar com o essencial. E quando tomou aquele gole de coca, huuum, parou até de pensar. Na verdade, até pensou, mas nada era produtivo. Eis que enquanto comia seu pão, surge mais um conflito mental: "Isso não é manteiga, é margarina. São 4h27 da manhã e eu ainda não dormi. Estou tomando coca cola a essa hora. Meu pão foi aquecido no microondas, e não no fogão. Depois de tudo, ainda vou acender um cigarro. Se eu vivo assim, imagina meu filho?! Ele vai lá saber o que é manteiga de verdade, Aviação, aquela do potinho laranja? Vai saber o que é fogão? O que é leite com Toddy? E o que é dormir às 22h? Como assim, que tipo de mãe eu serei? Não quero que pra ele/ela manteiga seja como a concepção que eu tenho de alcaparras, muito menos que fogão seja como o que é forno a lenha pra mim. E nem que... Ainda nem pensei no nome da criança! Nossa! E não sei se vai ser menino ou menina! Nem engravidei. É o fim.
Deixa quieto, vamos mudar o foco da narrativa e voltar ao que interessa, nada de pensamento a longo prazo: ele realmente pisou no meu calo, e AGORA?"
Prazer, essa era eu em terceira pessoa e estou tão puta comigo mesma que não quero nem falar por mim. Não hoje.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

É disso que estou falando!

Eis que surge, não sei se no meu coração ou no meu cérebro a vontade de sossegar. Ao mesmo tempo que estou com o coração apertado, tenho meus pés no chão. Talvez a decisão parta da mente, da alma e do corpo. De vez em quando, é ótimo lembrar de quando namorava e sentava no sofá em pleno sábado à noite pra ver um filme do Telecine com uma mantinha pra cobrir as canelas e tomando um Toddy. Eventualmente, até rolavam umas torradinhas com manteiga. E isso me dá uma saudade... não deles ou do relacionamento, mas sim daquele compartilhamento de preguiça, ou como diz a música "vontade gêmea de ficar e não pensar em nada". Era ótimo, ninguém falava nada, ninguém discutia, mas eu SABIA que tinha alguém ali do meu lado dividindo o leite, a manteiga, a mantinha e a atenção ao filme. E só isso me confortava, não precisava do ombrinho ali pra me encostar, não era algo tão tênue. Era estabilidade.
E, sinceramente, essa vida que só acontece aos finais de semana não tem mais valor pra mim. Quero viver de segunda a quinta TAMBÉM. Compartilhar cerveja, toddy, vinho, coca-cola ou seja lá o que for com alguém. E não alguém diferente todo final de semana, quero a mesma pessoa. Dividir momentos, ideias, sonhos, (nhenhenhém) desilusões, ilusões e tudo o que puder. Não quero compartilhar só carne. Leite é algo mais relevante pra mim. Compartilhar carne significa algo mais avassalador, agressivo e obviamente carnal. Enquanto o leite significa algo mais sentimental, proteção e pureza. E é disso que estou falando.
Talvez a paixão não seja o mais cabível ou o essencial. Nada de taquicardia e calafrio. Paixão é como pinga: se você vai com sede à garrafa, é certo que sua mente não estará ali e você achará tudo lindo e insistirá em continuar bebendo, mesmo sabendo que quando deitar pra dormir, a sensação será desagradável e você vai botar tudo pra fora de uma vez. E voilà, lá se foram seus planos. É UM PORRE... e porre só causa dor de cabeça! Afinidade é o primeiro passo pra estabilidade, aquela conexão que não dá pra explicar, o conselho bem-vindo que não havia nem sido solicitado, mas foi percebido, os olhos que se encontram e conversam por horas a fio (e chega de detalhes, porque não sou tão bonitinha, também). E aquela sensação de deitar no travesseiro segura, sabendo que fez a coisa certa e que amanhã fará a coisa certa de novo e se continuar desse jeito, mais cedo ou mais tarde estarão na sala num sábado à noite vendo Telecine, dividindo um copo, um pão velho e uma mantinha. Não existe nada melhor do que compartilhar momentos em meio ao silêncio. Essa divisão toda é paradoxal, porque é uma soma que só se multiplica. E é assim que a felicidade se consuma, a meu ver. Às vezes é bom se afastar do mundo que se esbalda em todos os finais de semana e não aproveita uma vírgula dos momentos. Esses são os que mais fogem da realidade. Acham que correm atrás da felicidade enquanto ingenuamente correm dela mesma.
De-fi-ni-ti-va-men-te não quero sucumbir aos finais de semana destilados, minha intenção é fermentar.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Sonhos janela abaixo

Cheguei, sentei ali embaixo pra acabar meu cigarro. Escutei o ronco de alguém (creio eu e Deus queira) que mora no primeiro andar. Logo pensei: enquanto ele ronca, ela assiste TV e fuma um cigarro, toma um vinho lambrusco barato, lê "Marie Claire, a revista das mulheres que dormem de calça jeans" e pensa em como se separar desse infeliz ser que a faz sentir com ursos em Yellowstone. Chega na casa da mãe e diz "Mas mãe, eu não aguento mais o Rodney, ele faz um barulho com o nariz indescritível, feito um porco abandonado pela mãe porca. E isso não é necessariamente uma metáfora". A mãe olha pro marido que assiste "O melhor do Brasil", com Marcio Garcia (não percam sábado, ele vai imitar a Beyoncè! Essa foi aos vovôs e vovós e homens casados que roncam, que estiverem lendo isso). Talvez ela já tenha passado por isso e pensado nisso, mas não tinha como ser uma dama desquitada em plenos anos 60. Não trabalhava, não dirigia, não bebia, não fumava e não transava. Mas tudo bem, segundo a igreja católica, mesmo que tenha casado grávida, foi só a daminha chegar com as alianças naquela capela em Aparecida do Norte, local de sua lua-de-mel, que a cagada estava feita. A mulher do urso polar insatisfeita tornou-se filha única naquele mesmo dia. Devem ter transado só naquela vez e o terror daquela coisa oval que se põe no dedo, jurando amor eterno que os repeliu, já não tinha mais graça transar, a primeira e única vez foi legal porque era proibido, coito interrompido era a tendência antes da camisinha. Pra evitar mais filhos, nunca saíram das preliminares.
No entanto, a filha única que desejava se separar devia ser mais moderna. Trabalhava, dirigia, bebia, fumava e claro, por estar casada, não transava. Separar-se agora é fácil. E quando ouço o ronco desse homem urso polar infeliz do primeiro andar (rimou), desejo mais ainda permanecer solteira, trabalhando, dirigindo, bebendo, fumando e diminuindo minha longevidade até que a morte me separe de uma vida de prazeres. Depois de devanear e quase roncar abaixo da janela e junto com o "unhappy couple", subi e peguei o elevador bonito; claro, o social, que tem espelho. Cheguei em casa, fui dar boa noite pra minha filha predileta, a cerveja. Sem mais rodeios, fui fazer xixi. Olhei pra frente e vi meu filho caçula, B.Goode, meu pyork shire. Enquanto eu fazia xixi e ele sorria pra mim com todos os dentinhos à mostra, pensei em "saber ressaltar as coisas bonitas e boas da vida.". Era pra eu ter escrito algo mais existencial, mais emocional, até ouvi Zóio de Lula (a música da frase) pra tirar algo do meu cérebro que partisse o coração e passasse pra cá. Mas aí vi que o cérebro não serve pra isso, nunca vi alguém que tivesse inteligência emocional, nem alguém que passou na USP porque foi até o reitor e chorou. E olhando o título da música, penso nos olhos do ex-presidente e até acho bonitos, meio mel. Depois, penso no casamento dele com a Marisa e repito a narrativa anterior.
Pra que casar, né? Cedo ou tarde, a carne se trai.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Banco de reservas

Eu, fantasiando o dia inteiro, pensando no fato de eu estar solteira. Todos os três titulares me sacanearam, fiz poucos gols no campeonato e nenhum gol de placa. Nenhum gol que me fizesse acordar diferente no dia seguinte. Ninguém surpreendeu meus sentidos até o momento, ninguém prometeu mundos e fundos, me presenteou com uma noite linda e depois fugiu, porque assim que é legal. Não, eles foram vendidos pra outros times sem que eu tivesse um gol de placa. Nenhum gol olímpico, nenhum gol de bicicleta, de letra, de carretilha. Apenas gols, todos me pareciam jogadores do juniores.
E eu, sem nenhum gol lindo, fico fantasiando um dia no campeonato em que eu vá pra liderança e ganhe o meu título. Penso em um deles, dali a cinco minutos o outro me liga e o outro me chama no MSN. Um foi embora de São Paulo, o outro foi embora do Brasil, os dois mais promissores foram vendidos. Já em relação aos juniores, um assinou um contrato com outro clube na frente de meus dois olhos, que enxergam bem. Ao mesmo tempo, o outro fugiu pra festa e não cumpriu suas obrigações como atleta do meu clube.
Acho que estou convivendo demais com eles. E agora me pergunto por que usei o futebol como metáfora. Todos me sacanearam, eu cheguei a colocar música triste pra tentar chorar, mas lembro que meu cabelo está laranja e choro por outro motivo. Bebo 10 copos de chopp pra tentar ficar triste, eu derrubei uma lagriminha, e eu ainda acho que foi porque não fiz xixi e estava transbordando, tinha que sair por algum lugar. Cheguei a pensar que amava esse ser que me fez chorar, mas aí lembrei que até colírio faz meu olho pingar. Depois do excesso de cerveja e vi que quem me fez chorar, foi ela. É a ela que devo meu mais sincero amor, ela me faz transbordar e passa as noites em claro comigo... e quando acordo, ela deixa aquele recado "volta pra mim" em forma de dor de cabeça e sede. Ele é só meu orgulho besta, só porque eu não consigo ter quando quero e isso me deixa doida. Nada além disso. Depois pensei que tinha coração de pedra, que tinha ficado forte. Ficar forte, eu fiquei, mas não imune. E meu coração ainda é de manteiga, mas os homens são substituíveis por enquanto. Se um me chateia, sei que tenho mais dois. Se dois me chateiam, sei que tenho mais um. Se todos me chateiam, aí sei que é hora de fazer a substituição e convocar o banco de reservas.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A (infeliz) realidade

Mente masculina:
"Ok, já pensei em tudo. Amanhã é aniversário dela, três de julho, um bom dia pra ela lembrar de mim, em todos os aniversários vai lembrar de mim mesmo que a gente termine (ledo engano, já pensaram nisso antes de você). Tenho todo um plano, e como já "comi" mesmo, nem preciso de aliança. Vou chamar ela pra nóis ver um filme de ação muito bom que saiu no telecine. Que isso? Cinema, não! Gastar pra quê? Já basta o Mc Donald's que vou pedir, mó bica! Cê é lhoco... eu desempregado e sem estudar, ainda pago inteira! Mas claro, vou botar uma velinha aqui em casa pra nóis fazer aquela lara, eu sei que tem. Sempre a Eletropaulo corta minha eletricidade, minha mãe já deixou fácil na gaveta. Ah, é... O Mc Donald's não entrega aqui na minha quebrada. Sabe qual que é? Vou botar aquele "Knorr Meu Arroz" na panela, jogar uns grão e ver qual que vai ser. Pra acompanhar pode ser uma farofa pronta mesmo, é isso. E pra beber, deixa eu pensar em alguma coisa barata que dê brisa... Sangue de Boi, esse é pedrada, 5 litrão, rende até pro rolê com os brother. "
E chega o grande dia.
Ela entra na casa dele, passa pela porta, chega ao quintal, todos os 20 cachorros dele pulam nela, ela suja sua calça branca e se senta meio desconfortável com o ambiente. Olha para a mesa: "Nossa, Juninho, uma vela de Santo Expedito no meio do quintal pra quê?". Enfim, ele desconcertado, chega com a panela, aquele arroz empapado e queimado "Sirva-se, Carol". Ela se serve, coitada. Come, mastiga, mastiga e resolve pôr uma farofinha pra tirar a umidade do arroz. Ele diz "É, farofinha é bom, menina!". Ela pensa consigo mesma "e como é, pelo menos essa não foi você quem fez". Ele enche a boca de farofa sem nem pensar. Ela mastigando, ele com as bochechas, queixo, barba, (que ele não fez) nariz a pálpebras enfarofados...
Sejamos objetivos: precisa terminar o texto pra saber que não deu certo? Boa noite!