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sexta-feira, 18 de março de 2011

Eu somos

Essa página em branco não me apetece. Depois de escrever aproximadamente 10 linhas, vejo a tela cheia de letras, apago tudo e escolho outro tema. Hoje vou deixá-lo fresquinho e sem retoques. Meu perfeccionismo vai ficar de cara com isso e hoje ele está bravo comigo, por isso vou desafiá-lo.
Temos uma relação de amor e ódio e já atribuí vários apelidos carinhosos a ele: detalhismo, metodismo... mas capricho é o que eu mais gosto. De vez em quando ele se decepciona comigo: "Gabriela, que vergonha! Você vai mesmo sair e deixar essas roupas jogadas no seu quarto?". Às vezes ele se orgulha de mim, "Lavou a louça todinha! Agora já pro banho, porque ambos sabemos o asco que lhe proporciona a sensação de micróbios e restos de alimento nas suas mãos." Só de lembrarmos, temos arrepio.
Eu e meu perfeccionismo formamos um casal perfeito. Ele é sincero demais, sempre diz quando meu cabelo está feio ou minha roupa não está bonita, quando o texto está péssimo e deve ser salvo nos rascunhos para aperfeiçoar depois, e por vezes me faz arrancar folhas do caderno e escrever de novo quando não capricho ao escrever a data. Quando saímos pra comer, ele não me deixa comer pão de forma com manteiga porque tem aflição, e se comer pão de forma TEM que ter um pingo de mostarda em cada canto. Ele odeia quando eu fumo e perco o charminho do perfume por isso, não me deixa dormir sem lavar as mãos e escovar os dentes, tampouco dormir com um pijama que não combine as cores. E ai de mim se não dormir de pijama, o capricho dorme no sofá e só acorda de bem comigo se eu fizer aquele café da manhã pra gente, sem esquecer dos pingos de mostarda nos cantos. Mas quando ele se orgulha, é uma felicidade que não cabe em mim. Por isso compartilho com ele.
É um defeito e uma qualidade, por isso a relação de amor e ódio. Ele não apenas me quer, como todos os outros, que precisam de mim pra que os outros saibam quem eu sou. Me quer BEM... pra que eu sempre saiba quem eu sou/somos. Somamos.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Coisas que meus filhos não saberão

Quatro horas e vinte e sete minutos (da manhã), ela se revirou quase que do avesso no colchão e mesmo assim não dormia. Tirou as meias, a blusa de frio... mas as preocupações e coisas intangíveis permaneceram naquele cubículo junto com ela. Foi refrescar as ideias: pão, manteiga, espátula, coca-cola e copo. Passou manteiga no pão, botou no microondas, e enquanto aguardava os rotineiros 30 segundos do aquecimento, colocou coca-cola no copo e pegou o pote de sal pra dar o toque especial ao lanche da madrugada. "Piii piii", apitou. Mordeu o pão e parou de se preocupar com o essencial. E quando tomou aquele gole de coca, huuum, parou até de pensar. Na verdade, até pensou, mas nada era produtivo. Eis que enquanto comia seu pão, surge mais um conflito mental: "Isso não é manteiga, é margarina. São 4h27 da manhã e eu ainda não dormi. Estou tomando coca cola a essa hora. Meu pão foi aquecido no microondas, e não no fogão. Depois de tudo, ainda vou acender um cigarro. Se eu vivo assim, imagina meu filho?! Ele vai lá saber o que é manteiga de verdade, Aviação, aquela do potinho laranja? Vai saber o que é fogão? O que é leite com Toddy? E o que é dormir às 22h? Como assim, que tipo de mãe eu serei? Não quero que pra ele/ela manteiga seja como a concepção que eu tenho de alcaparras, muito menos que fogão seja como o que é forno a lenha pra mim. E nem que... Ainda nem pensei no nome da criança! Nossa! E não sei se vai ser menino ou menina! Nem engravidei. É o fim.
Deixa quieto, vamos mudar o foco da narrativa e voltar ao que interessa, nada de pensamento a longo prazo: ele realmente pisou no meu calo, e AGORA?"
Prazer, essa era eu em terceira pessoa e estou tão puta comigo mesma que não quero nem falar por mim. Não hoje.