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quarta-feira, 3 de maio de 2017

bons dias

Pode parecer pouco, mas esse é o começo de um bom dia.

Acordei às 7h50, liguei o chuveiro. Enquanto a água supostamente esquentava, peguei a extensão ao lado da cama, levei para a sala, liguei a cafeteira e coloquei a cápsula 10. Busquei também o leite em pó e uma faca porque todas as minhas três colheres estavam para lavar. Deixei tudo no esquema.

Entrei no banho com vontade, a água ainda estava fria. Desanimei um pouco mas ok, "talvez o chuveiro seja sempre assim, mas hoje está mais frio e a sensação térmica muda". Para a minha surpresa, olhei para a esquerda e vi que o chuveirinho estava aberto, por isso a água não esquentava muito. Fechei a mangueirinha e tudo voltou ao normal. Primeira surpresa boa.

Adoro o banho, a espuma, o sabonete, o momento em que eu sou eu e sou limpa. Adoro a sensação de que todo o mal está indo embora pelo ralo, de que estou nova, digna de começar um dia novo. Gosto do vapor, de lavar o rosto até sentir o cheiro do sabonete e espirrar.

Banhos mereciam parágrafos intermináveis se pudessem ser intermináveis. Adoro essa sensação para começar o dia sem nada mal resolvido. Olha eu aqui cheirosa e novinha em folha, pronta para encarar todas as caras de bunda que me aparecerem pela frente.

E para quem diz que enrolar os cabelos e fazer bigodinho com eles no meio de uma reunião é falta de postura: não, não é falta de postura. Eu faço bigodinho com os cabelos porque eles estão cheirosos. Porque eu lavo todo dia e você não.

Voltando ao banho, continuo passando o sabonete até conseguir sentir o cheiro dele nos braços e ombros sem precisar virar o pescoço. Tiro o condicionador, acaba. Puxo uma toalha para o cabelo e outra para o corpo. Não gosto de me secar no banheiro e assim não molho o chão do quarto com as gotinhas que caem das pontas. Tem gente que não entende essa necessidade. Uma amiga veio aqui e perguntou se moro num hotel, pela quantidade de toalhas debruçadas na porta do banheiro.

Saio do banho. Aproveito para buscar a roupa no varal que lavei a noite passada, molhada. Lavei ontem à noite porque queria usar hoje cedo. Se quisesse usar amanhã, teria lavado hoje à noite. Sou assim. 

A roupa está úmida. Passo e pego o café que deixei no jeito, jogo uma faca de leite em pó e faço meu capuccino instantâneo. No quarto, ligo o secador, e seco primeiro o meu frio, depois atrás das orelhas. Aí pego a roupa úmida, enfio o secador nas mangas da blusa e dou uma secada.

Enfim, parto para o cabelo, começo pela franja, depois o resto. Mas muito tempo mesmo na franja. Olho para o relógio, são 8h20, meu cabelo e minha roupa ainda estão molhados e às 8h30 tenho que estar na estação. Ignoro e continuo o deleite de me gostar.

Dou mais uma secada nas roupas e visto as leggings mais úmidas do que a blusa. Deixo a toalha molhada na cama e percebo isso quando chego em casa, perto da meia-noite. As meias estão ok. As roupas molhadas exalam amaciante. Fumo um cigarro na varanda enquanto olho a estação e a avenida pegando fogo lá embaixo. Volto, lavo as mãos, escovo os dentes.

Tranco as portas, desço as escadas, aperto o botão e saio para a rua.
Lá se foi a hora mais feliz do meu cotidiano.

ps: as calças secam por volta das 14h e me sinto feliz por estar quentinha.

terça-feira, 2 de maio de 2017

torre de metáforas



Todos os dias está lá, na minha frente, um prédio em construção no terreno atrás da empresa. Sento debaixo da árvore com um copo de plástico e café de garrafa, busco o isqueiro amarrado num cordão perto da porta, acendo um cigarro.

Enquanto fumo, acompanho a obra e me ponho a pensar por que estou aqui todos os dias. Por que não peço demissão. Por que aceito isso. Muitos porquês.

O prédio, para mim, é uma torre de metáforas.
Já pensei na disparidade de salários entre pedreiros e engenheiros e comparei com as minhas tarefas aqui.

Um pedreiro pode ser mais experiente que um engenheiro sem precisar de 5 anos de estudo.
Eu posso entender mais de algumas coisas que, na qualidade de assistente, não posso decidir.
Mas, no fim das contas, eu, eles e todos os que estão na base são responsáveis diretos pelo resultado.
São essas pessoas que tiram o plano dos outros do papel e fazem acontecer aquilo que os outros não podem fazer, mas podem pagar pouco por alguém que só faça e não opine.

Outra metáfora, dessa vez comigo mesma.

Nunca sei se estou errada ou certa, só sei que tem um bichinho que come meu cérebro enquanto planta uma sementinha que diz "sai dessa enquanto é tempo", "vai fazer o que você gosta".
Eu sei que tudo daria certo se eu largasse, como sempre deu. E geralmente é ainda melhor do que depender de um trabalho só.

Quantas vezes eu tive coragem pra largar tudo aquilo com o que não concordava sem mais nem menos? Incontáveis. E agora estou aqui, sentada, olhando pra essa construção prédio e tentando me conformar de que tudo é um processo e que eu preciso crescer.

Há alguns meses, era só um esqueletão de concreto que subia com ajuda de andaimes.
Pouco a pouco subiu inteiro, vieram os buracos das janelas e agora estão colocando os vidros para, então, pintar tudo e mostrar o serviço lindo pro engenheiro.

Eu ainda sou um esqueletão de concreto, mas acredito que tenha potencial para ser um arranhacéu. Só que ninguém reconhece isso. Nem eu.

Estranho pensar que é a construção de um prédio que me faz voltar do cigarro com toda a paciência do mundo pra não pedir demissão.

Mais estranho ainda é pensar que essa obra me acalma.

Nunca fui adepta do discurso de que você tem que comer cocô pra chegar em algum lugar, acho que isso é uma ideia que plantam na cabeça das pessoas para acharem que só se constrói valor com o tempo.

E o tempo passa, 30 anos passam, e vem uma vergonha de aposentadoria. E quando a gente rala o cu na ostra para conquistar algo, comentam "você merece", "sei o quanto suou a camisa por isso".

É só isso?
Será que só podemos experimentar o prazer depois de (muita) dor?
Será que te enfiaram isso miolos abaixo e te fazem engolir esse discurso indigesto pra gente acreditar que é só assim que se merece algo?

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Onde as essências se perdem?

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Quando o passatempo passou a ser valorizado em cifras e virou meu ganha pão, minha essência desistiu de mim. Há dois anos não escrevia nada que me significasse algo.

Coincidentemente, foi quando comecei a escrever sobre como ser uma revendedora Tupperware ou como regular os faróis do seu carro sem gastar. Foram quatro artigos triviais por dia durante nove meses. Vendi meu talento por 10 euros por dia. Na época, ainda não sabia que 25% disso seria descontado no meu IR português que pago até hoje.

Agora produzo conteúdo em uma startup de logística. É um bom eufemismo para falar que trabalho em uma empresa cujo CEO é um estrangeiro cheio de contatos que consegue investimento para uma ideia que poderia ser qualquer outra, mas a dele foi escolhida porque é estrangeiro. O meu papel é respeitar os robôs do Google e minha chefe para que os meus textos estejam na primeira posição das pesquisas e que, de alguma forma, eu consiga chamar atenção de alguém que posteriormente será ludibriado.

Como eu me sinto? Como o Roberto Carlos fazendo campanha para a Friboi.

Mas mais coisas aconteceram além de começar a trabalhar com o meu passatempo. Nesse meio tempo, me mudei de casa cinco vezes: duas em Portugal e três no Brasil. Meus cachorros foram para um sítio por falta de espaço, minha caixa de memórias se perdeu em alguma dessas mudanças.

As pessoas passaram a pedir que eu me conformasse com as circunstâncias:

"Agora você tem uma casa pra pagar, não pode mandar tudo à merda."
"A vida é assim. Quando você se conformar vai ficar tudo mais fácil."
"Você tem que colocar o pé no chão."

E eu passei a ouvi-las.

Esqueci daquela coragem que tinha de vender o carro, mandar meu ex à puta que o pariu e ir sozinha passar um ano em outro país sem visto. Só percebi o quanto eu era corajosa quando perdi minha essência e larguei meu papel.

Até a minha maneira de questionar meu futuro mudou. Já não me pergunto mais quem eu quero ser. Hoje, a pergunta é "quem eu vou ser?". Engraçado como um verbo pode desconstruir sentidos e esconder sentimentos.

Pouco a pouco, meu inconformismo antes questionador deu lugar aos silêncios e medos. Medo de falar, de falhar, de lugares cheios ou vazios demais, medo de tentar o novo, de tentar de novo. Já não faço as minhas vontades quando e como bem entendo - coisa que sempre tive como certo, desde que não prejudicasse ninguém.

Nos intervalos de todos esses silêncios ainda tem muito por ser dito. E feito?