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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Onde as essências se perdem?

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Quando o passatempo passou a ser valorizado em cifras e virou meu ganha pão, minha essência desistiu de mim. Há dois anos não escrevia nada que me significasse algo.

Coincidentemente, foi quando comecei a escrever sobre como ser uma revendedora Tupperware ou como regular os faróis do seu carro sem gastar. Foram quatro artigos triviais por dia durante nove meses. Vendi meu talento por 10 euros por dia. Na época, ainda não sabia que 25% disso seria descontado no meu IR português que pago até hoje.

Agora produzo conteúdo em uma startup de logística. É um bom eufemismo para falar que trabalho em uma empresa cujo CEO é um estrangeiro cheio de contatos que consegue investimento para uma ideia que poderia ser qualquer outra, mas a dele foi escolhida porque é estrangeiro. O meu papel é respeitar os robôs do Google e minha chefe para que os meus textos estejam na primeira posição das pesquisas e que, de alguma forma, eu consiga chamar atenção de alguém que posteriormente será ludibriado.

Como eu me sinto? Como o Roberto Carlos fazendo campanha para a Friboi.

Mas mais coisas aconteceram além de começar a trabalhar com o meu passatempo. Nesse meio tempo, me mudei de casa cinco vezes: duas em Portugal e três no Brasil. Meus cachorros foram para um sítio por falta de espaço, minha caixa de memórias se perdeu em alguma dessas mudanças.

As pessoas passaram a pedir que eu me conformasse com as circunstâncias:

"Agora você tem uma casa pra pagar, não pode mandar tudo à merda."
"A vida é assim. Quando você se conformar vai ficar tudo mais fácil."
"Você tem que colocar o pé no chão."

E eu passei a ouvi-las.

Esqueci daquela coragem que tinha de vender o carro, mandar meu ex à puta que o pariu e ir sozinha passar um ano em outro país sem visto. Só percebi o quanto eu era corajosa quando perdi minha essência e larguei meu papel.

Até a minha maneira de questionar meu futuro mudou. Já não me pergunto mais quem eu quero ser. Hoje, a pergunta é "quem eu vou ser?". Engraçado como um verbo pode desconstruir sentidos e esconder sentimentos.

Pouco a pouco, meu inconformismo antes questionador deu lugar aos silêncios e medos. Medo de falar, de falhar, de lugares cheios ou vazios demais, medo de tentar o novo, de tentar de novo. Já não faço as minhas vontades quando e como bem entendo - coisa que sempre tive como certo, desde que não prejudicasse ninguém.

Nos intervalos de todos esses silêncios ainda tem muito por ser dito. E feito?


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