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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Eu, antagonista da minha vida (?)

A Gabriela abandonou sua vida, e nem precisou se matar pra isso. Simplesmente ignorou os detalhes e deixou o piloto automático assumir seu controle. Trabalhou, estudou, tomou banho na hora certa, dormiu às 21h em sextas, sábados, domingos, feriados e vésperas. Saiu duas vezes: na primeira, colocou o cérebro no automático e conversou assuntos aleatórios com diversas pessoas. Na segunda, foi à casa de um amigo com seus amigos de infância e dormiu. Ficou sem comer, passou noites em claro, foi embora do trabalho mais cedo, faltou às aulas...
Então decidiu ficar quieta até que a poeira baixasse e ela mesma assumisse a direção da sua vida, mas o piloto automático fez usucapião do controle e não queria devolvê-lo. 
Foi aí que percebi, estava vivendo mais só do que qualquer ser que esteja só. Estava vivendo sem mim. É ruim deixar alguém pra trás, se desvencilhar de um hábito, mas eu tinha que ser meu hábito, minha mania, e não os outros. Não sei como não senti dor pra esquecer de mim. Mas enfim, eu voltei. Um dia resolvi ligar a TV e ver filmes diferentes, nos outros passei a conhecer músicas novas, pessoas novas, criar manias novas. Fico extremamente feliz por conhecer alguém tão diferente de mim quanto eu mesma. Posso ficar 24 horas comigo, que agora não me canso.
É péssimo quando a gente se sente só mais um, e isso é muito relativo: pra quem vê de fora, somos só mais uns mesmo. Procurei olhar de dentro e me surpreendi com o que encontrei. Tanta coisa que quis e fiz, tantas outras que pretendo fazer e só dependo de mim. É terrível quando confundimos delicadeza com fragilidade, ser sensível com ser emotivo.  A gente pode cruzar dedos pra dar sorte ou pra mentir, pode colar em prova, fazer conversão proibida, pode atrasar 5 minutos no trabalho, pode se entupir de comida, pode se perder com GPS, pode ficar sem dinheiro pra gasolina, pedir informação na rua logo pra um estrangeiro, deixar o celular com o frentista do posto pra fazer fiado. Tudo isso pode, basta que cada um seja cada um. Sem culpa, sem privação, sem auto-piedade. Algumas situações pedem de desespero, mas a racionalidade é essencial pra não esquecermos de que tem vida antes da morte.
A ventura dá as cartas. A Ventura joga. 

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