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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Sonhos janela abaixo

Cheguei, sentei ali embaixo pra acabar meu cigarro. Escutei o ronco de alguém (creio eu e Deus queira) que mora no primeiro andar. Logo pensei: enquanto ele ronca, ela assiste TV e fuma um cigarro, toma um vinho lambrusco barato, lê "Marie Claire, a revista das mulheres que dormem de calça jeans" e pensa em como se separar desse infeliz ser que a faz sentir com ursos em Yellowstone. Chega na casa da mãe e diz "Mas mãe, eu não aguento mais o Rodney, ele faz um barulho com o nariz indescritível, feito um porco abandonado pela mãe porca. E isso não é necessariamente uma metáfora". A mãe olha pro marido que assiste "O melhor do Brasil", com Marcio Garcia (não percam sábado, ele vai imitar a Beyoncè! Essa foi aos vovôs e vovós e homens casados que roncam, que estiverem lendo isso). Talvez ela já tenha passado por isso e pensado nisso, mas não tinha como ser uma dama desquitada em plenos anos 60. Não trabalhava, não dirigia, não bebia, não fumava e não transava. Mas tudo bem, segundo a igreja católica, mesmo que tenha casado grávida, foi só a daminha chegar com as alianças naquela capela em Aparecida do Norte, local de sua lua-de-mel, que a cagada estava feita. A mulher do urso polar insatisfeita tornou-se filha única naquele mesmo dia. Devem ter transado só naquela vez e o terror daquela coisa oval que se põe no dedo, jurando amor eterno que os repeliu, já não tinha mais graça transar, a primeira e única vez foi legal porque era proibido, coito interrompido era a tendência antes da camisinha. Pra evitar mais filhos, nunca saíram das preliminares.
No entanto, a filha única que desejava se separar devia ser mais moderna. Trabalhava, dirigia, bebia, fumava e claro, por estar casada, não transava. Separar-se agora é fácil. E quando ouço o ronco desse homem urso polar infeliz do primeiro andar (rimou), desejo mais ainda permanecer solteira, trabalhando, dirigindo, bebendo, fumando e diminuindo minha longevidade até que a morte me separe de uma vida de prazeres. Depois de devanear e quase roncar abaixo da janela e junto com o "unhappy couple", subi e peguei o elevador bonito; claro, o social, que tem espelho. Cheguei em casa, fui dar boa noite pra minha filha predileta, a cerveja. Sem mais rodeios, fui fazer xixi. Olhei pra frente e vi meu filho caçula, B.Goode, meu pyork shire. Enquanto eu fazia xixi e ele sorria pra mim com todos os dentinhos à mostra, pensei em "saber ressaltar as coisas bonitas e boas da vida.". Era pra eu ter escrito algo mais existencial, mais emocional, até ouvi Zóio de Lula (a música da frase) pra tirar algo do meu cérebro que partisse o coração e passasse pra cá. Mas aí vi que o cérebro não serve pra isso, nunca vi alguém que tivesse inteligência emocional, nem alguém que passou na USP porque foi até o reitor e chorou. E olhando o título da música, penso nos olhos do ex-presidente e até acho bonitos, meio mel. Depois, penso no casamento dele com a Marisa e repito a narrativa anterior.
Pra que casar, né? Cedo ou tarde, a carne se trai.

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