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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Só eu e tu no mundo

Ela, brasileira, quase que não-nata, quase que não com as mesmas tradições de um brasileiro comum. Quando dorme, é uma pedra. Quando acorda é uma pena! Ninguém aguenta tanta energia, tanta coisa pra contar, tantas utopias, tantos voos em solo. Coca-cola e cigarros são coisas que podem sustentá-la por dias. Ela era azul. Ele, verde, de outro lugar a oito mil quilômetros aéreos daqui, bem longe, Portugal . Decidido, impaciente, orgulhoso, racional e planejador. Não dava voos no solo, pés firmes no chão. Acordava cedo e recusava-se a comer porcarias.
Por oposição ou disposição, de alguma forma se conheceram. Ele vinha pra São Paulo. Ela, de mudança e desocupada em um dos seus intervalos, enquanto comia alguma porcaria, viu seu pedido de ajuda na internet. Ajudou. Não estava fazendo nada, mesmo. Só comia um Big Tasty e havia 50 caixas prostradas na sala esperando serem desfeitas e um incansável cansaço. Por que não ajudá-lo?, pensou ela. E não duas vezes, assim foi. Ou algo quis que assim fosse. Apresentou-se, ofereceu ajuda, passou sites, pôs-se à disposição.
Conversaram algumas vezes, ele já sabia que ela havia terminado um protótipo de relacionamento que se arrastava por um ano havia pouco. Mais precisamente, algumas horas. Ela já sabia que ele estava só havia um ano. Passaram-se quase 20 dias quando ele, desesperado num domingo à noite em Madrid, chamou-a pedindo ajuda. Seus dois outros amigos vieram antes e não encontravam casa ou alguém que pudesse guiá-los. "Estarei às dez da manhã no metrô Jardim São Paulo, diga para me encontrarem lá, primeira saída à esquerda após a catraca." Passou-se um tempo até que entendessem o que era uma catraca. Ela mandou uma foto. Na segunda-feira, às 10h08, estava ela no metrô. Identificou-os pelas meias pretas, cumprimentou, apresentou-se. Um calor danado!
Ali começou tudo, levou-os primeiro à casa da vovó para um copo d'água e seguiram à zona leste. Visitaram algumas pensões que ofereciam aluguel que eram mesmo desumanas, até para uma paulistana acostumada à cidade. Encontraram um lugar "ruim com ele, pior sem ele". Onze elementos na mesma casa, não podia beber, não podia fumar, não podia levar gente de fora, nem lavar roupa ou fazer comida. Ensinou-os a expressão "é o que tem pra hoje". Ao fim do dia, levou-os para uma cerveja na sua casa, beberam, conversaram, falaram de costumes. Entretanto teve um insight e resolveu conversar com a vizinha e negociar o aluguel da casa ao lado. Deu certo, poderiam mudar-se ao fim daquela semana. No dia seguinte chegaria o terceiro elemento, aquele ao qual ela havia oferecido ajuda primeiro.
No dia seguinte, terça-feira, eles na república e ela nas aulas... impaciente, queria saber se ele havia chegado bem. Uma preocupação e um querer bem a quem ainda não se conhecia fora do habitual. Nem ela sabia por que se sentia daquele jeito. Às 22h15, recebeu uma mensagem em seu celular de um número infinito: "Olá! Já estou em São Paulo! Viemos jantar aos Espetinhos Coroné, sobes a "Tuiti" (do lado contrário de onde estiveste ontem com o Tiago e o Ricardo) e é na rua Cantagalo, 45. Vens cá? Beijinho". Sempre a se perder em São Paulo, saiu da faculdade imediatamente e foi. Chegou sem se perder e pôde conhecê-lo. Ele, inconformado com a cidade e as condições, só sabia dizer "foda-se" e repetia aquilo diversas vezes. Ela não entendia, mas preferia não perguntar por que ele dizia aquilo. Tomou uma cerveja, deixou-os em casa e foi pra casa. Ele também se preocupava: "Mande mensagem quando chegares".
Jantaram juntos naquela semana e de alguma forma, surgia um quê de interrogação na cabeça dela. E no coração, por conseguinte. Breves olhares, algumas empatias, coisas em comum que identificavam e calavam.
Finalmente mudaram-se para a casa ao lado. E com a mudança, muita coisa mudou além do material. Ela ajudou como pôde com tudo o que podia oferecer para tornar a estadia deles mais confortável. Beberam, jogaram cartas, saíram todos aos bares, conversavam por um tempo no Facebook quando voltavam, coisas que não perguntariam cara a cara. "Pensas em voltar para o seu ex?" ela, despretensiosa com a pergunta, respondeu que não. Ele, em réplica, disse que conhecia muitas miúdas e poucas eram como ela. E que não era para ser totó. Ela traduziu para PT-BR e interpretou. "Totó...? Cachorrinho, que vai e volta, obedece tudo. Miúda... miúda? Pirralha, pivete, menininha". Totó, em parte, estava certo, é tonta. Miúda não. Miúda é moça, menina, garota, guria, rapariga. Ela só não sabia disso e quase que desistiu de pensar nele por pensar errado.
Saíram mais uma vez, queria apresentar o fabuloso Corinthians a eles, jogo de abertura da Taça Libertadores da América. Foram à Liberdade, beberam copos na calçada, nem viram o jogo. Chegaram em casa, estacionaram. Por algum motivo, inventaram de lutar. Ele a derrubou na grama, ela mordeu seu braço forte, deixou marca... ele a fez comer grama. Entraram e logo partiram para o Facebook, eram raros os momentos em que podiam falar a sós. E de alguma maneira, sós, pois apesar da distância de 5 metros que separavam seus quartos, não estavam perto. Ela se desculpou pela mordida, ele disse que era só desculpa para dar beijinhos para sarar. E que, cá entre eles, um beijinho só não funcionaria. Ela respondeu "sim, dois" e desligou o computador. Ficou sem resposta, ele. E ela, sem entender por que o cara que a chamou de miúda dois dias antes disse aquilo.
Na semana seguinte foram à Augusta, num bar trash e voltaram pra casa sem novidades. De novo ao Facebook. Os dois não dormiam, tinham algo entalado no peito que precisava ser dito. Ambos deram a desculpa de que os galos cantando não deixavam dormir. Ele aproveitou a deixa e perguntou se ela sabia boas histórias pra adormecer. Ela só se perguntava "mas como assim? o que se passa?", enquanto sem pensar duas vezes, respondia que sim, tinha boas histórias. Ele pediu que contasse uma com final feliz pra ter sonhos felizes e a chamou até lá.
Hesitante e não, calçou as Havaianas e ao passo que dava suas passadas, passo a passo, no compasso dos seus passos lentos, batia seu coração descompassado. Mesmo que rápido, devagar. Sua barriga esfriava, dava arrepio. Chegou até lá e abriu a porta, enquanto ele descia as escadas com o edredom colorido dela nas costas... Sentou-se nas almofadinhas dela, no chão de concreto da sala e convidou-a para fazer companhia. Pediu uma história, ela disse algo desconexo sobre sua infância. Mas uma coisa foi certeira: cedo ou tarde ele se aproximaria devagarzinho pra lhe beijar. E foi assim... cedo, amanhecendo o dia, deram um beijo que durou alguns instantes e deitaram nas almofadinhas. Ali ficaram abraçados por alguns minutos. Logo ela voltou pra casa e ao Facebook e lá estava a mensagem em resposta à pergunta que ela ia fazer "Final feliz! Vou ter bons sonhos! :)".
Ninguém sabia do ocorrido. Bolaram um plano infalível: ela pulava a sacada e passava a noite lá. Voltava às 6h30 da manhã, antes que sua família ou algum dos meninos acordasse. Mantiveram segredo dos outros dois por um dia, que foi revelado após uma bebedeira e a surpresa deles ao ver que estavam de pijamas deitados, prontinhos para dormir. O plano da varanda continuou, pois ainda era segredo para a família dela. Vigorou por quatro dias, quando ela esqueceu-se do cachorrinho trancado no quarto. Estava com ele quando ouviu "Gabiii, abre a porta!". Imediatamente pulou a sacada, entrou pelo quarto do irmão e apareceu com a chave do quarto na mão. Levantou suspeitas, mas sua mãe tinha motivos maiores de preocupação e preferiu não entender o porquê da situação. Soltou o cachorro e, imediatista, não quis esperar um pouco até que todos fossem dormir de novo. Pulou para o quarto dele e logo o plano caiu por terra. A partir de então, avisou a sua mãe e passou a vê-lo como qualquer pessoa normal, saindo pela porta.
Foram à festa da faculdade e em meio a uma bebedeira resolveram abandonar o orgulho e revelaram que se gostavam. Passavam madrugadas adentro bebendo em casa, todos. Ele escrevia "eu amo você" e fotografava enquanto ela fechava a cara por motivos de ciúme ainda inexistente. Ela respondia "Eu também" com palitos de dente. Ele resolveu passar a sair sozinho com os amigos e o ciúme, naturalmente, surgiu. Ela resolveu sair com as amigas em plena segunda-feira para beber e descontrolar o que sentia e finalmente falar sobre seus ciúmes. Discutiram pela primeira vez e o segundo round foi na semana seguinte, quando ele a viu conversar com seu ex no Facebook. Motivo para não se falarem por um dia todo. Ela verborragiava palavras em PT-BR e ele não entendia nada, misturado ao choro e expressões típicas. Ele discutia em PT-PT e ela tentava traduzir. Aos poucos ela conquistou sua confiança enquanto ele fazia o contrário. E desfazia sempre que quisesse. Entre picos de confiança e desconfiança, surgiram viagens a churrascos, à praia, à pedreira, os suavinhos... Conheciam e se conheciam mais um pouco. Ela, como eles, é turista em sua própria cidade. Tudo novidade, odeia feijoada e assistia aos almoços deles às quartas-feiras, comendo um punhado de farofa. Caipirinha, ela não... ele sim. Diante de dicotomias construía-se uma grande cumplicidade, que independia da relação afetiva que tinham, tão ou mais valiosa quanto/que as noites que passavam juntos. Dividiam medos e fraquezas.
Ele passou a procurar empregos em São Paulo, foi a uma entrevista na qual foi aprovado mas não obteve respostas sobre a contratação nos meses que se sucederam. A vontade de ficarem perto um do outro cada vez mais aumentava. Infelizmente, mesmo que aprovado mas sem resposta, desistiu. Após irem à praia, passaram o comecinho de noite juntos, ela fazendo tapiocas e ele ouvindo música no Ipad enquanto lavava a louça. Ele, com as mãos ensaboadas, pediu para que abrisse o fecho. Ela abriu a torneira. Era o fecho do casaco, fazia um frio de lascar. Mesmo após 3 meses ela não entendiam algumas expressões. Em 8 de junho, ela levou-o ao aeroporto. Ele passou doze dias fora, entre estes o dia dos namorados e seu aniversário. Os doze dias foram uma prova, uma simulação que ditaria como se comportariam longe um do outro caso se mantivesse a relação. Ele disse que conversara com seus pais e que decidiu desistir de arranjar emprego em São Paulo, afinal, quando voltasse só teria mais um mês para fazê-lo, e quis tocar o projeto da família em Natal. Ela acolheu a notícia, mas preferiu não mostrar a angústia que lhe causava a sensação de já estarem afastados. E, mesmo que no mesmo país, ainda afastados. Ela desconversou, mudou de assunto, falou do cachorro. E chorava enquanto fingia serenidade.
Foi buscá-lo no aeroporto em 20 de junho. Teve a sensação de que conhecia outra pessoa, diferente daquela dos Espetinhos Coroné em 6 de março. Ficaram estranhos, distantes mentalmente por alguns dias. Talvez a notícia da proximidade de país, mas distância de estado tenha afetado o futuro daquilo tudo e por alguns momentos (diria dias), colocaram os pés no chão e as cartas na mesa a si mesmos. Mais algum tempo se passou e estavam juntos como nunca estiveram antes, sentindo de alguma forma o medo que tinham de que seus caminhos, novamente por disposição ou oposição, se afastassem. Sentiam isso um no outro e dedicavam-se a aproveitar aqueles 30 dias (que passaram como um instante) finais, cada minuto. Não se largaram, não brigaram muito. De aniversário ele deu a ela uma passagem a Natal, reservada para dia 5 de outubro. O cartão falhou, a passagem não foi emitida nem reemitida depois.
Durante os quatro últimos dias tudo ficou mais silencioso, angústias caladas com bebedeiras, noites em claro, declarações, planos, noites memoráveis. O banheirinho da despensa no quintal, que foi onde caiu em prantos durante a última festa da casa. Desde o começo fingia estar feliz pela festa de despedida, mas chorava em seu carro desde o dia em que vira o convite. Não aguentou, desabou. E foi ali, abraçada a ele, onde ouviu as palavras e promessas mais desajeitadas, desajustadas, desorganizadas e desconexas que alguém poderia ter dito a ela. E as mais lindas (carrega nos élhis), mais sinceras (ou mais sensatas). De toda forma, nunca tinha ouvido uma declaração tão a par do que sentia. Recíproca. Durante aquela noite, em meio a um frio congelante, após uma discussão sem motivo, embalados numa casinha de cobertor, eram só os dois no mundo. Pela primeira vez ele disse que a amava. Pela primeira vez ela não respondeu apenas "eu também" e pronunciou sem dificuldade alguma o seu primeiro "eu te amo", assim, completo. Porque era assim que se sentia.
E chegou, finalmente e infelizmente, a última noite. A mãe dela conversava com todos na cozinha, porém ela não suportou por muito tempo e sentou-se no sofá, contando até 50 para segurar o choro. Mas ele vinha de dentro mesmo, era incontrolável. As lagriminhas pulavam uma a uma, e ela passava a manga da blusa no rosto a fim de tentar conter o pranto. Comprimia os olhos pra ver se os canais lacrimais se fechavam. Era como enxugar um iceberg com um pano, impossível. Ele a viu chorando, subiu ao quarto e ela o seguiu. Na famosa varanda, (também cenário de muitos nasceres-do-sol), embalados, permaneceram em silêncio por alguns frágeis minutos. Chorando, ele pôs novamente os planos em pauta, pediu para que ela mantivesse a calma, assegurou-a de que a distância nem seria tão longa, de que aquilo tudo continuaria. Dormiram juntos, abraçados, abstiveram-se de tentar qualquer coisa pois correria o risco de desistirem pelo choro. Enfim, adormeceram.
O dia amanheceu e logo deu-se início à desmontagem dos móveis, devoluções, mudanças de novo. Ela foi para casa e manteve-se imóvel, quase que em estado de choque enquanto via cada móvel e pecinha voltar para seu lugar de origem. Não se conteve nem para tirar uma última foto em frente à saudosa casa 30, e saiu chorando.
Enquanto ele dirigia até o aeroporto de Viracopos, ela tentava manter-se equilibrada, mas as músicas não deixavam. Vez ou outra desabava e se recompunha. Chegando lá, no portão de desembarque ela se despediu dos outros três, não com menos pesar. Mas ele... era complicado. Não conseguiam se olhar. E quando veio na direção dela e se olharam, ela não conseguia chorar baixinho. Doía mesmo. Aquele abraço cheio de medo de ser o último doeu por dentro e dava uma vontade de não largar, de ficar naquele embalo doído parada ali, levando multa da polícia pra sempre por permanecer em local proibido. Os planos foram refeitos, relembrados. A vontade dela de acabar a faculdade para estar com ele era tamanha, que após a despedida fez uma prova da faculdade aos prantos e tirou 9. Poderia ser uma prova de medicina, e ela, mesmo leiga, tiraria 9 só para acabar logo com aquilo.
Por disposição ou oposição do destino, aquela prova não era a última, mas o abraço, sim. Após três semanas de distância, ele com os pés no chão. E em seu país, resolveu terminar. Ela, com a cabeça nas nuvens não entendia o porquê. Por disposição ou oposição, ele é racional. Eu, sentimental.
Queria mesmo que fôssemos só eu e tu no mundo como naquela noite.

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