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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Os camundongos do trilho

Seis da tarde no relógio da Estação da Luz. Todo mundo fala da história dela, da arquitetura, da importância do local, do centro de São Paulo que hoje abriga a crackolândia.
Mas não estou interessada nisso agora, já passei dois meses observando essa história (quase que) de segunda a sexta e algo me despertou mais a atenção do que o "turismo" em si.
Há duas semanas, enquanto falava ao telefone, observei uns pontinhos se movendo no trilho, rapidinho, pra lá e pra cá. Não consegui assimilar o que era, já que só consigo utilizar um dos meus sentidos por vez (ou eu escuto, ou enxergo, assim como não consigo andar e mascar chiclete simultaneamente). O trem chegou, embarquei, "Senhores passageiros, boa noite. Este trem tem como destino a estação Rio Grande da Serra. O tempo estimado de viagem é de 52 minutos. A CPTM deseja a todos uma boa viagem." e lá fui eu em direção à estação seguinte, intrigada com o que defini por OTNI's (objetos terrestres não identificados). Como gosto de pequenos mistérios, não desisti.
No dia seguinte... mentira, no dia seguinte faltei à aula. Ok, dois dias depois, olhei fixamente pros trilhos. Inicialmente, achei que fossem folhas secas, mas era impossível, porque não tem árvore ali. Logo, vi rabinhos e coisinhas vivas, camundongos pais, camundongos filhos, o pajé camundongo e toda uma aldeia roedora se instalava ali. E são camuflados, da cor das pedras marrom-acinzentadas. Lembrei da seleção natural, claro, eles eram como as mariposas ebony que ficaram cinzas, mas antes eram brancas. Com a revolução industrial na Inglaterra, tiveram que mudar de cor se quisessem sobreviver. Só elas, branquinhas dando sopa em meio à fuligem? Assim como os ratos ebony da estação da Luz. Vivem ali há inúmeras gerações, já nascem pequenos e ficaram da cor das pedras, quase invisíveis aos olhos desatentos. Mas nada me escapa, especialmente quando procuro distração imediata... e passei todos os dias a observar a rotina dos camundongos aventureiros.
Diariamente, torço pra que alguma velhinha na fila do trem derrube uma pipoca ou um biscoito de polvilho no chão da plataforma. O fiscal vem pôr a fita do desembarque, chuta a pipoca e semeia a discórdia na aldeia roedora. Pajé rato, cacique rato, filhote rato, pai, mãe, TODOS lutando por uma pipoca, sem usuários preferenciais. O mais ágil e forte leva o trunfo pra casa. Chega o trem, somem os ratos, pessoas se empurram, se esmagam, se aniquilam, se cotovelam (existe essa palavra?) em prol de um assento. E o mais ágil e forte leva o assento do vagão pra casa?
...Depois ousam dizer que o homem é racional.

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