Seis da tarde no relógio da Estação da Luz. Todo mundo fala da história dela, da arquitetura, da importância do local, do centro de São Paulo que hoje abriga a crackolândia.
Mas não estou interessada nisso agora, já passei dois meses observando essa história (quase que) de segunda a sexta e algo me despertou mais a atenção do que o "turismo" em si.
Há duas semanas, enquanto falava ao telefone, observei uns pontinhos se movendo no trilho, rapidinho, pra lá e pra cá. Não consegui assimilar o que era, já que só consigo utilizar um dos meus sentidos por vez (ou eu escuto, ou enxergo, assim como não consigo andar e mascar chiclete simultaneamente). O trem chegou, embarquei, "Senhores passageiros, boa noite. Este trem tem como destino a estação Rio Grande da Serra. O tempo estimado de viagem é de 52 minutos. A CPTM deseja a todos uma boa viagem." e lá fui eu em direção à estação seguinte, intrigada com o que defini por OTNI's (objetos terrestres não identificados). Como gosto de pequenos mistérios, não desisti.
No dia seguinte... mentira, no dia seguinte faltei à aula. Ok, dois dias depois, olhei fixamente pros trilhos. Inicialmente, achei que fossem folhas secas, mas era impossível, porque não tem árvore ali. Logo, vi rabinhos e coisinhas vivas, camundongos pais, camundongos filhos, o pajé camundongo e toda uma aldeia roedora se instalava ali. E são camuflados, da cor das pedras marrom-acinzentadas. Lembrei da seleção natural, claro, eles eram como as mariposas ebony que ficaram cinzas, mas antes eram brancas. Com a revolução industrial na Inglaterra, tiveram que mudar de cor se quisessem sobreviver. Só elas, branquinhas dando sopa em meio à fuligem? Assim como os ratos ebony da estação da Luz. Vivem ali há inúmeras gerações, já nascem pequenos e ficaram da cor das pedras, quase invisíveis aos olhos desatentos. Mas nada me escapa, especialmente quando procuro distração imediata... e passei todos os dias a observar a rotina dos camundongos aventureiros.
Diariamente, torço pra que alguma velhinha na fila do trem derrube uma pipoca ou um biscoito de polvilho no chão da plataforma. O fiscal vem pôr a fita do desembarque, chuta a pipoca e semeia a discórdia na aldeia roedora. Pajé rato, cacique rato, filhote rato, pai, mãe, TODOS lutando por uma pipoca, sem usuários preferenciais. O mais ágil e forte leva o trunfo pra casa. Chega o trem, somem os ratos, pessoas se empurram, se esmagam, se aniquilam, se cotovelam (existe essa palavra?) em prol de um assento. E o mais ágil e forte leva o assento do vagão pra casa?
...Depois ousam dizer que o homem é racional.
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