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terça-feira, 2 de maio de 2017

torre de metáforas



Todos os dias está lá, na minha frente, um prédio em construção no terreno atrás da empresa. Sento debaixo da árvore com um copo de plástico e café de garrafa, busco o isqueiro amarrado num cordão perto da porta, acendo um cigarro.

Enquanto fumo, acompanho a obra e me ponho a pensar por que estou aqui todos os dias. Por que não peço demissão. Por que aceito isso. Muitos porquês.

O prédio, para mim, é uma torre de metáforas.
Já pensei na disparidade de salários entre pedreiros e engenheiros e comparei com as minhas tarefas aqui.

Um pedreiro pode ser mais experiente que um engenheiro sem precisar de 5 anos de estudo.
Eu posso entender mais de algumas coisas que, na qualidade de assistente, não posso decidir.
Mas, no fim das contas, eu, eles e todos os que estão na base são responsáveis diretos pelo resultado.
São essas pessoas que tiram o plano dos outros do papel e fazem acontecer aquilo que os outros não podem fazer, mas podem pagar pouco por alguém que só faça e não opine.

Outra metáfora, dessa vez comigo mesma.

Nunca sei se estou errada ou certa, só sei que tem um bichinho que come meu cérebro enquanto planta uma sementinha que diz "sai dessa enquanto é tempo", "vai fazer o que você gosta".
Eu sei que tudo daria certo se eu largasse, como sempre deu. E geralmente é ainda melhor do que depender de um trabalho só.

Quantas vezes eu tive coragem pra largar tudo aquilo com o que não concordava sem mais nem menos? Incontáveis. E agora estou aqui, sentada, olhando pra essa construção prédio e tentando me conformar de que tudo é um processo e que eu preciso crescer.

Há alguns meses, era só um esqueletão de concreto que subia com ajuda de andaimes.
Pouco a pouco subiu inteiro, vieram os buracos das janelas e agora estão colocando os vidros para, então, pintar tudo e mostrar o serviço lindo pro engenheiro.

Eu ainda sou um esqueletão de concreto, mas acredito que tenha potencial para ser um arranhacéu. Só que ninguém reconhece isso. Nem eu.

Estranho pensar que é a construção de um prédio que me faz voltar do cigarro com toda a paciência do mundo pra não pedir demissão.

Mais estranho ainda é pensar que essa obra me acalma.

Nunca fui adepta do discurso de que você tem que comer cocô pra chegar em algum lugar, acho que isso é uma ideia que plantam na cabeça das pessoas para acharem que só se constrói valor com o tempo.

E o tempo passa, 30 anos passam, e vem uma vergonha de aposentadoria. E quando a gente rala o cu na ostra para conquistar algo, comentam "você merece", "sei o quanto suou a camisa por isso".

É só isso?
Será que só podemos experimentar o prazer depois de (muita) dor?
Será que te enfiaram isso miolos abaixo e te fazem engolir esse discurso indigesto pra gente acreditar que é só assim que se merece algo?

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